Por Felipe Galeno

 

Perder um filho recém-nascido é, possivelmente, uma das dores mais difíceis pela qual alguém pode passar na vida, algo tão intenso que pode facilmente ‘dividir’ a vida de uma pessoa em antes e depois do evento. Em “Pieces of a Woman”, lançamento original da Netflix, a morte de uma criança tem esse efeito não apenas na vida dos personagens, como também na própria estrutura do filme. O evento traumático cria uma espécie de separação entre os primeiros 30 minutos da duração e o resto do longa, e, por mais interessante que a ideia soe no papel, essa escolha acaba ajudando a revelar as fragilidades da obra.

A produção é o primeiro trabalho em língua inglesa da dupla húngara Kornel Mundruczó e Kata Weber. Ele é diretor, ela é roteirista, ambos são casados e passaram por uma experiência parecida com a do casal que protagoniza “Pieces of a Woman”. A perda de um bebê motivou Kata a escrever o roteiro do drama que, apesar da inspiração, não é uma autobiografia. A narrativa acompanha o casal fictício Marth (Vanessa Kirby) e Sean (Shia LaBeouf), que perdem sua primeira filha, Yvette, poucos minutos após seu nascimento.

O roteiro, porém, não se limita às consequências traumáticas do evento. Na verdade, o nome do filme só aparece em tela depois de um longo plano-sequência de quase meia hora, dedicado a retratar o parto de Martha em todos os seus detalhes. A cena – que acaba criando comentada cisão do longa em duas partes – é o momento em concentra as principais virtudes da obra. A escolha por filmar o acontecimento sem cortes pode até soar, de início, como mero virtuosismo, mas consegue se justificar pela forma como casa a movimentação palpitante da câmera com a fisicalidade inerente a um parto. Além disso, também é nesse momento, mais do que qualquer outro, que o impacto pessoal dessa história para os realizadores fica mais palpável, e isso, somado à continuidade angustiante, tem um efeito bem forte em quem assiste.

O único problema, entretanto, é que a força da sequência inicial e seu desfecho trágico criam uma experiência que é muito superior ao que o filme tem a oferecer em seguida. Se nesse trecho a obra consegue nos imergir no contexto e nos conectar à emoção dos personagens, tudo o que se segue depois disso falha em fazer o mesmo. O sentimento pessoal que o longa carregava até então vai dando lugar a um distanciamento genérico, que passa a marcar boa parte da projeção. As tentativas de representar o luto de Martha caem em armadilhas óbvias e dissolvem o poder do sentimento ao ilustrá-lo através de simbolismos simplistas demais (as crianças na rua, a semente da maçã, entre outros).

Além do discurso sobre o luto, a superficialidade também atinge alguns dos caminhos tomados pela narrativa. Para uma obra que começa buscando um pretenso realismo, é, no mínimo, inusitado o tom ‘novelesco’ que certas subtramas adquirem conforme a história vai se desenrolando. Só que a questão não está nas decisões clichês e afetadas em si, mas na forma como o filme não se aprofunda nelas. Tempo de tela que poderia ser investido no desenvolvimento do drama da protagonista é usado para apresentar conflitos secundários que nunca são explorados como poderiam. A relação de Martha com a mãe, por exemplo, aparece como uma questão importante para a trama, mas nunca é trabalhada de forma satisfatória, ao ponto de prejudicar o impacto que tem no espectador quando seu desfecho chega.

Diante de tantas dificuldades, quem segura mesmo o andamento da produção é Vanessa Kirby, que interpreta a personagem principal. A atriz consegue não só lidar com a delicadeza que o papel possui por si só, como também desvia, na medida do possível, das limitações que a execução do longa impõe. Kirby não cai nem no exagero nem na amenidade, mas acha, entre os dois, o lugar certo para transmitir as complexidades de uma mulher enfrentando um tipo de sofrimento bem particular e complicado. Seus colegas de cena, por sua vez, tem um trabalho adequado, porém limitado pelo pouco material que tem. Shia LaBeouf e a veterana Ellen Burstyn até tem um ou outro momento de destaque, mas não chamam tanta atenção para além disso.

Os minutos finais de “Pieces of a Woman” ilustram bem o que acaba sendo o resultado geral do longa. Em uma espécie de flash-forward discreto e simbólico, o filme se encerra em outra analogia bem básica que até esboça simpatia, mas sem deixar marcas muito memoráveis ou corresponder à potência dos minutos iniciais. Para um trabalho que toca em temas tão fortes e começa tão bem, a soma final é bem menos marcante do que deveria.

FICHA TÉCNICA

Ano: 2021

Duração: 128 min

Gênero: drama

Direção: Kornel Mundruczó

Elenco: Vanessa Kirby, Shia LaBeof, Ellen Burstyn, Molly Parker, Benny Safdie, Sarah Snook

Avaliação do Filme

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