Por Murillo Trevisan

Na Hell’s Kitchen dos anos 70, mulheres eram abandonadas em casa sem grandes ambições de carreira ou poder, com a árdua obrigação de cuidar apenas das tarefas do lar e da família. Quando três grandes mafiosos irlandeses são presos, suas esposas Kath, Raven e Angie não tinham outra opção para ganhar a vida a não ser assumirem os seus lugares, que as fariam descobrir uma grande aptidão no ramo do crime. Esse é o argumento da HQ “A Cozinha: Rainhas do Crime”, da Vertigo – selo adulto da DC Comics – escrita por Ollie Masters, Ming Doyle e Jordie Bellaire, que ganha agora uma adaptação cinematográfica.

No filme, a única personagem original mantida é Kathy, aqui interpretada por Melissa McCarthy (“Crimes em Happytime”), que volta a deixar de lado sua veia cômica após o sucesso do ótimo “Poderia Me Perdoar?”, drama que lhe rendeu a indicação de melhor atriz no Oscar 2019. Kathy é a única do trio que parece estar feliz na relação com o marido. Mesmo deixada em casa para tomar conta dos dois filhos, ela demonstra uma forte ligação com o marido.

Claire (Elisabeth Moss) e Ruby (Tiffany Haddish) completam o trio na adaptação. Enquanto Claire desfruta da prisão de seu marido abusivo, que a agredia impiedosamente, Ruby tem que lidar com a poderosa sogra (Margo Martindale) que muda o comando da Cozinha do Inferno, tornando a vida de todos do bairro muito mais complicada. Quando as três protagonistas se unem para tomar dianteira dos negócios não imaginavam que se dariam tão bem, chamando a atenção de grandes mafiosos de Manhattan.

A montagem que demonstra a conquista dessas mulheres é feita de forma simplificada e pouco crível. A tomada de poder e consecução de confiança da comunidade é feita através de papos rasos e cortes bruscos, que colocam o compasso da história em desconfiança logo no início. A mudança de tom entre cada ato evidencia ainda mais o grave problema de ritmo que o longa possui. Na mesma proporção em que as passagens são picotadas no 1º ato, se alonga demasiadamente no final.

Estreante na direção de longas-metragem, Andrea Berloff – roteirista do premiado “Straight Outta Compton: A História do N.W.A.” (2015) – não consegue se entender com seu próprio roteiro que adapta. Ora evidencia a violência como um bom suspense criminal, ora a esconde como se pretendesse buscar uma classificação PG13. A impressão que deixa é de que o tempo de produção foi se encurtando, tendo que finalizar às pressas.

O grande destaque fica para a atuação insana de Domhnall Gleeson (“Adeus, Christopher Robin”), que encarna na pele do psicopata Gabriel O’Malley, dando uma peculiaridade bastante necessária à história. A questão é que, parece um pouco problemático quando o personagem com maior profundidade de um filme, que trata de feminismo e empoderamento da mulher, é um homem.

Apresentando sérios problemas como uma adaptação cinematográfica, “Rainhas do Crime” sofre com o ritmo incoerente, mas ostenta a mesma trama intrigante e beleza estética dos quadrinhos que a deram origem.

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 102 min

Gênero: Ação, Crime, Drama

Diretor: Andrea Berloff

Elenco: Elisabeth Moss, Melissa McCarthy, Tiffany Haddish, Domhnall Gleeson, Common, Margo Martindale

Avaliação do Filme

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