Por Luciana Ramos

Johnny (Joaquin Phoenix) é um rádio jornalista que trabalha entrevistando jovens sobre suas ambições e projeções de futuro. Sem pensar muito no que esperar da própria vida, ele passa os dias de maneira solitária e decide, no aniversário de morte de sua mãe, entrar em contato com a irmã, Viv (Gabby Hoffman). Foram muitas as brigas que os levaram a interromper a comunicação – embates de percepções e atitudes que culminaram no não entendimento. Ao telefone, sem saber direito como agir, os dois ensaiam uma aproximação rasa e Viv conta ao irmão que seu ex-marido, portador de uma doença mental, precisa de ajuda em outra cidade.

Isso significa que alguém deve se encarregar por Jesse (Woody Norman), seu filho de nove anos, mas, antes mesmo que ela peça, Johnny se oferece para a missão. Segundo ele, seria correto tentar estreitar os laços com seu familiar e, apesar de fluir superficialmente bem, o convívio entre os dois suscita inúmeras dúvidas no tio. Em primeiro lugar, o garoto não é como ele previa: imaginativo, melancólico e um pouco esquisito, ele é amoroso, mas nem sempre sabe responder da forma como Johnny espera. Vez ou outra, pequenas rusgas de comunicação conduzem a situações estressantes e revelam a infantilidade de Jesse, camuflada em sua percepção aguçada do mundo. Tais incidentes frustram Johnny, pois ressaltam o sentimento de não ser apto para a tarefa. O que aos poucos ele compreende é que, embora o garoto esteja feliz em estar na estrada com o tio, ele sente profundamente as mudanças na rotina e vida familiar, nem sempre sabendo responder ao medo de forma objetiva.

Acostumado a ouvir pela sua profissão, o protagonista percebe em determinado momento que este é o exercício que deve fazer com o sobrinho: se propor a entendê-lo, compreender suas virtudes e limitações, sabendo que o processo de formação de uma pessoa é bem mais tortuoso do que o propagado por aí. Reside nesse ponto uma força interessante do longa: a escusa em romantizar a maternidade/cuidadoria. A honestidade de algumas conversas entre Johnny e Viv reflete a complexidade e o peso em ser responsável pela criação de um ser humano funcional, satisfeito e, quiçá, feliz.

A relação entre adulto e criança quebra algumas expectativas (o garoto pode ser extremamente profundo, por exemplo) e tece, no seu processo, reflexões interessantes. A priori, o filme fala de futuro, ou melhor, de ouvir os anseios da geração que viverá o futuro. Por outro lado, apela ao passado, tanto nos flashbacks da morte da mãe ou dos primeiros indícios da doença de Paul (Scoot McNairy) quanto no modo como esses momentos foram processados por quem os viveu – das diferenças de interpretação, nascem as rusgas; da revisão dessas passagens com um novo olhar, é proposto o entendimento.

Já o presente é experimentado diretamente na interação entre Johnny e Jesse e sedimenta-se pela necessidade dos dois em discutirem a criação de memórias: o tio afirma que, devido à intensidade do período, ele se lembrará de tudo no futuro, mas o sobrinho, por ser uma criança hiper estimulada e com um mundo inteiro ainda para descobrir, guardará um detalhe ou outro do tempo juntos. Afinal, o que é significativo o bastante para ser guardado?

“Sempre em Frente” segue a tradição dos longas de Mike Mills, sendo simples em estrutura narrativa, mas emocionalmente cativante. Assim como fez em “Mulheres do Século XX”, ele preenche seu novo filme com escritos de outros artistas, que aparecem na tela em íntegra como catalisadores de reflexão. Nesse caso, também se despe das cores, investindo na simplicidade do preto e branco (capaz de anular extravagâncias) para focar em seus personagens.  

O sucesso da produção, portanto, depende intrinsecamente das atuações do enxuto elenco principal, formado por Joaquin Phoenix, Gabby Hoffman e Woody Norman. Enquanto Gabby imprime vulnerabilidade, generosidade e assertividade como Viv, Joaquin contrapõe com uma frágil camada de sisudez, a barreira que seu personagem carrega e é facilmente quebrada por Jesse. Seu olhar para o garoto é, ao mesmo tempo, gentil e assustado, um pouco perdido; nas interações, Joaquin se revela generoso e empático com o colega de cena. Já Woody atua de maneira brilhante, com extrema desenvoltura e sensibilidade, conseguindo explorar as incoerências e confusões de seu personagem sem deixá-lo perder a inocência característica da idade.

Ao focar nas relações, no poder da escuta e da compreensão com uma narrativa simples, “Sempre em Frente” mostra-se rico em textura emocional, um daqueles filmes que afagam o coração.  

Ficha Técnica

Ano: 2022

Duração: 1h 49 min

Gênero: drama

Direção: Mike Mills

Elenco: Joaquin Phoenix, Woody Norman, Gabby Hoffman

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