Por Luciana Ramos

Na última década, houve um aumento expressivo na produção cinematográfica brasileira. Embora louvável, esta permanece marcada pela abundância de clichês na escolha de gênero, tema ou tom adotado. Diante de um cenário tão vasto, são poucos os que se destacam por parecerem únicos e verdadeiramente ousados. Felizmente, “Sinfonia da Necrópole” é um desses casos.

 

O primeiro filme solo de Juliana Rojas, que já havia co-dirigido “Trabalhar Cansa” com Marco Dutra, oferece um entretenimento deliciosamente despretensioso combinando dois elementos que, à primeira vista, não parecem dialogar: o primeiro refere-se à escolha da ambientação do conflito, um cemitério; o segundo, ao fato de ser um musical. No entanto, a combinação destes é fluida e bem inserida, com as letras servindo para impulsionar a trama e as melodias, variadas composições, ditando o ritmo do filme.

A história centra-se em Deodato (Eduardo Gomes), um aprendiz de coveiro que morre de medo da sua profissão. Este é designado para auxiliar Jaqueline (Luciana Paes), uma agente funerária contratada para por em prática um plano de reestruturação no cemitério: a lotação dos jazigos fez a administração bolar estruturas verticais que comportam mais ossadas e, assim, resultam em maior lucro. Porém, tal empreitada requer a mudança dos corpos de algumas unidades, o que faz o coveiro confrontar seu maior temor.

 

sinfonia 1

 

O longa acerta ao explorar o potencial cômico da relação entre protagonista e ambiente, oferecendo boas piadas que se sustentam pela ótima atuação de Eduardo Gomes. No entanto, de forma inteligente, sabe quando se desprender dele e introduzir outros tipos, como a dona da floricultura, o padre e o hipocondríaco que acha que cada dia é o seu ultimo, cada um com sua relevância e inerente comicidade.

Assim, o longa transita na sua primeira hora de forma fluida, embalando o espectador em ritmos diferentes e oferecendo boas risadas. Porém, apressa-se na resolução dos conflitos no seu terceiro ato, resultando em uma sucessão de cenas fragmentadas e previsíveis, coroadas com um clímax que peca pela precariedade da direção de arte e maquiagem.

Ainda que afetem a qualidade narrativa e estética, tais problemas de forma alguma comprometem o filme como um todo, já que esse consegue suprir a expectativa de diversão do público. A junção de uma boa fotografia com diálogos engraçados e, em especial, ótimas atuações faz “Sinfonia da Necrópole” um filme que merece ser visto. Certamente merecemos mais produções originais e inspiradas como esta no cinema brasileiro.

 

Ficha técnica sinfonia poster


Ano:
 2014

Duração: 94 min

Nacionalidade: Brasil

Gênero: comédia

Elenco: Eduardo Gomes, Luciana Paes, Hugo Villavicenzio, Paulo Jordão

Diretor: Juliana Rojas

 

Trailer:

 

 

 

Imagens:

Avaliação do Filme

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