Por Luciana Ramos

Aos 86 anos, Ruth Bader Ginsburg é uma celebridade americana, cultuada em artigos pop como camisetas que fazem referência a sua influência no país. Sua fama, no entanto, não deriva de exposição na mídia ou trabalhos ligados ao audiovisual, mas da carreira que construiu como advogada, na qual atuou em prol da igualdade legal entre gêneros.

Segunda mulher a ser apontada para a Suprema Corte Americana, Ruth foi recentemente homenageada com duas obras que refletem sobre o seu legado: o documentário “RBG”, ainda inédito no Brasil e recém-indicado ao Oscar, e o longa “Suprema”, que se devota aos seus anos de formação, assim como seu primeiro impacto na revisão da Constituição dos Estados Unidos.

O filme inicia com a chegada de Ruth (Felicity Jones) à Harvard, onde foi uma das poucas mulheres selecionadas para estudar Direito. Na época, a maioria das instituições de ensino separavam os gêneros por profissões, relegando o sexo feminino a formações em áreas como enfermagem. Ao contrário do aparente vanguardismo de Harvard, escondia-se (muito mal) o impetuoso sexismo, não só dos colegas como também do próprio Reitor Erwin Grinswold (Sam Waterston), que desmerecia as estudantes com comentários chauvinistas.

Dividindo-se entre a vida familiar, que já incluía uma filha, e os seus estudos, ela ainda se propôs a assumir as aulas do seu marido Martin (Armie Hammer) após o diagnostico dele de câncer. O seu esforço foi amplamente notado no campus, mas isso não significou em boas oportunidades após o término do curso. As desculpas que recebia quando era dispensada de uma vaga demonstravam o clima inóspito ao sexo feminino. Esta sucessão de recusas, por sua vez, a levou à dedicação do estudo de leis que diferenciavam homens e mulheres (ao todo 178) enquanto professora.

A atriz Felicity Jones posa ao lado de pôster pop da Juíza Ruth Bader Ginsburg

Na década de 70, ela vislumbra a primeira chance de provocar uma mudança real: Charles Moritz (Chris Mulkey), um homem solteiro que se dividia entre o trabalho e os cuidados da mãe doente, acabara de ter seu pedido de compensação tributária negado pelo fato de ser homem – a lei interpretava que mulheres deveriam desempenhar a função de cuidadora dos entes próximos. Usando-o como exemplo da malignidade em diferenciar direitos a partir do gênero ignorando as condições de cada caso, Ruth abriu um processo que seria julgado pelos representantes da Suprema Corte.

A escolha de colocar este caso em especial no cerne da trama, ocupando boa parte do tempo do longa, pode ser explicado tanto pelo seu apelo – já que uma vitória representaria o primeiro precedente para uma mudança concreta – quanto por representar a incessável busca da protagonista por atingir o seu ideal. Nisso, incluem-se entraves movidos pelo sexismo não só de figuras esperadas, como a do seu ex-reitor, como de ditos aliados, a exemplo do modo com que o seu amigo advogado e ativista, Mel Wulf (Justin Theroux), a rebaixa em momentos importantes.

Tecendo essas diversas camadas em uma linha cronológica clara, “Suprema” realiza um bom trabalho em expor a obstinação de uma mulher em mudar o sistema que foi programado para lhe derrubar. A narrativa delineia Ruth como alguém imperfeito e, por vezes, inseguro, mas igualmente indisposto a se conformar com injustiças, o principal traço que torna a sua personalidade tão atraente.

Embora agradável, o filme por vezes escorrega ao adotar escolhas convencionais demais no tratamento do seu tema, exemplificado na relação da protagonista com sua filha adolescente, fruto da ideologia setentista. Em uma determinada cena, as duas andam pelas ruas chuvosas enquanto tentam pegar um taxi e são abordadas por trabalhadores de uma construção, que não as poupam de comentários. A resposta de Jane (Cailee Spaeny), contraposta pela observação verborrágica de Ruth, serve rasamente para oferecer um panorama social da época, algo que poderia ser explorado de uma maneira menos superficial.

Valendo-se de alguns atalhos narrativos do tipo, a história também sofre por sua opção inicial, a de se firmar em torno de um caso, ao invés de investir em uma narrativa que expusesse mais amplamente o trabalho de Ginsburg e, assim, afirmasse categoricamente o peso do seu legado na legislação americana.

A isso, alia-se a direção de Mimi Leder, extremamente formal e pronta a recorrer aos clichês, como a da cena final, em que atriz e a homenageada sobem as escadarias da Corte, deixando a sensação que falta ousadia visual ao filme – e, em momentos como o citado, uma edição melhor.

Assim, mesmo com a competente atuação de Felicity Jones no papel principal, ao qual consegue impor credibilidade e força, o filme não consegue atingir um panorama de excelência, algo que uma personalidade como Ruth Bader Ginsburg merecia. Ainda assim, é relevante pela representação de uma mulher que, ao invés de se rebaixar ao sistema que a sufocava, decidiu dedicar a sua vida a mudá-lo.

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 120 min

Gênero: drama, biografia

Direção: Mimi Leder

Elenco: Felicity Jones, Armie Hammer, Justin Theroux, Sam Waterston

Trailer:

Imagens:

Avaliação do Filme

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