Por Marina Lordelo

Luca Guadagnino é um realizador habilidoso, isso foi atestado já no afetuoso “Me Chame Pelo Seu Nome” (2017). A expectativa pela refilmagem da obra clássica de Dario Argento datada de 1977, “Suspíria”, gerou então certa ansiedade pela linguagem que o atual diretor assumiria no que teria sido talvez o horror mais hiperestilizado do cinema.

Mas Guadagnino vai além da refilmagem. Assume alguns elementos em comum com a obra original – a mitologia, a cidade de Berlim, a escola de dança Tanz Akademie e alguns nomes de personagens – e cria em cima disso. Cria de forma extasiante. Se Argento usa do surrealismo da luz para contar sua história, Guadagnino usa da energia feminina expressa no movimento dos corpos das personagens para ambientar a narrativa. Estes se movem com texturas, com uma intensidade muscular exasperante. A tradução da feminilidade que reverbera ora em dor, ora em sexo, ora de regozijo saltam da tela, chegam até o espectador, que não sabe muito bem lidar com tamanha profusão de sensações.

Dakota Johnson é a protagonista Susie, agora dona de si e que ressignifica o sentido de força feminina. Enquanto a Susy original (Jessica Harper) conduz a história de uma forma passiva, Johnson segura nas mãos das atrizes coadjuvantes e recria o mistério que paira pela escola de dança e suas professoras. Nesse sentido, Madame Blanc (Tilda Swinton) age como a forma que intensifica a potência geradora de Susie. E há uma energia tão forte entre ambas que o roteiro tem dificuldade de abrir mão de suas presenças marcantes. 

A câmera então se pronuncia, contorna as personagens e vive a história com uma precisão de enquadramentos que enaltecem os corpos dispostos no espaço. Em contraponto a um trabalho coreográfico complexo, a câmera assiste de forma mais tímida, ainda que engenhosamente capte as expressões musculares num nível de detalhamento angustiante.

As luzes surrealistas ficam então para Argento, enquanto Guadagnino e Walter Fasano criam o surrealismo em momentos específicos da montagem, que contrapõe o ritmo das coreografias com a tensão necessária ao gênero. Recorta partes dos quadros e os mistura com vertigem para declarar na linguagem a literalidade que os corpos assumirão na trama, mas também usa as fusões do diretor da obra original como uma homenagem que não abre mão do estilo próprio. 

Se há dança, nem sempre há música. Dançar no silêncio ressalta o corpo, seus sons próprios, a intensidade da respiração, o choque com o chão e o deslocamento no ar – um ato de possessão. Assim o desenho de som alterna uma diegese de sons crus com a música melancólica  de Thom Yorke. Imagem-sensação e música-emoção adicionam à obra audiovisual uma terceira camada das texturas.

Guadagnino desenvolve então um terceiro ato que poderia ser apoteótico, ainda que haja quebras de ritmo e narrativa para dar conta do didatismo do roteiro. Há tanta coragem na escatologia dos planos que falta iniciativa em abandonar um pouco as regras clássicas de narrativa para mergulhar de vez na criação desse abismo sinestésico angustiante. 

Mãe Suspiriorum quer viver na eternidade e, para isso, precisa abrir mão de qualquer estigma realista.

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 152 min

Gênero: Horror, Mistério

Direção: Luca Guadagnino

Elenco: Chloë Grace Moretz, Dakota Johnson, Tilda Swinton, Doris Hick

Imagens:

Avaliação do Filme

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