Por Murillo Trevisan

As cinebiografias são vertentes fílmicas bastante complicadas de serem bem executadas. Diferente de um documentário, elas ainda devem englobar uma boa narrativa, contextualização histórica, adequação do gênero à personalidade ali representada e uma decente justificativa aos saltos temporais – no caso de abranger toda a vida da pessoa. Não basta colocar as já amadas músicas de uma famosa banda, por exemplo, como justificativa de um decente filme, quando se perde na linha temporal de sua carreira ou omite eventos excepcionalmente relevantes.

“Tolkien”, a cinebiografia de J.R.R. Tolkien – criador de “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit” – segue esse bom exemplo, embora ainda possua alguns poréns. O filme narra a história de John Ronald Reuel Tolkien, desde sua infância em Bloemfontein, na África do Sul, até o período da Primeira Guerra Mundial, onde foi convocado a servir.

Embora a narrativa não seja contada de forma linear, mas com o escopo de contextualizar-nos em sua origem, no início acompanhamos o jovem Tolkien (Harry Gilby), que após o falecimento do pai se muda para a Inglaterra. Anos depois, sua mãe faleceu em consequência de diabetes – que na época ainda não havia tratamento. Ela deixou a guarda dele e do irmão para um padre, amigo da família e se mudaram para Birmingham, onde com a ajuda de uma bolsa de estudos, estudou em um internato para garotos da elite inglesa.

Alternando entre os períodos de guerra, infância e estudos, o roteiro de David Gleeson (“Caubóis e Anjos”) e Stephen Beresford (“Orgulho e Esperança”) se mostra competente e corajoso. Ao mesmo tempo em que se acerta em manter a ligação entre os períodos, arrisca-se em diálogos longos que à primeira vista podem parecer desinteressantes, mas que se provam profundamente relevantes a trama. A paixão de Tolkien pelas línguas e suas inspirações na mitologia Nórdica (entre outras) para a criação de seus mundos estão sempre presentes e são por diversas vezes aludidas em cenas eficazes.

A respeito da adequação do gênero (conforme mencionado no início), aqui o diretor finlandês Dome Karukoski (“Tom of Finland“) harmoniza muito bem a obra ao escritor que ela está representando. Por meio de inserções fantasiosas, muitas referências de “O Senhor dos Anéis” são desempenhadas em tela, desde os sombrios Nazgûl e o poderoso Sauron nas cenas de guerra, quanto da beleza élfica que Tolkien (Nicholas Hoult) enxerga na amada Edith Bratt (Lily Collins).

Embora a química entre Lily Collins (“Simplesmente Acontece“) e Nicholas Hoult (“A Favorita”) flua muito bem, talvez o elenco seja o ponto fraco desse filme – nem tanto pela garota, que provoca as sensações necessárias quando está em cena, mas pelo protagonista. Hoult, que deveria carregar o protagonismo nas costas, desempenha o básico, sem nenhum momento memorável, deixando toda a responsabilidade para o bom roteiro e direção.

Por fim, “Tolkien” se prova uma obra bastante competente, serena e inteligente, fazendo jus a história desse gênio das letras chamado John Ronald Reuel Tolkien. Um filme sobre amor, dedicação, família e principalmente sobre amizade, como na Sociedade do Anel.

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 112 min

Gênero: Biografia, Drama, Guerra

Diretor: Dome Karukoski

Elenco: Nicholas Hoult, Lily Collins, Colm Meaney, Harry Gilby, Laura Donnelly

Avaliação do Filme

Veja Também:

Matrix Resurrections

Por Luciana Ramos   Nos anos 90, sedentos por materiais originais, os grandes estúdios viram a profusão de produtoras independentes...

LEIA MAIS

Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa

Por Luciana Ramos Nos já distantes anos 2000, em meio à renovação das narrativas de super-heróis, a Sony Pictures investiu...

LEIA MAIS

A Disputa do Natal

Por Luciana Ramos   O documentário “A Disputa do Natal” começa leve, propondo contar a história de Jeremy Morris, um...

LEIA MAIS