Por Luciana Ramos

Apressadamente, a Juíza Fiona Maye (Emma Thompson) entra e sai de salas de tribunais, onde decide o destino de famílias inglesas. O seu mais novo caso concerne a vida de gêmeos siameses, o que exige a difícil interpretação da lei pelo princípio de perpetuação da vida. Laureada pela sua conduta no trabalho, ela também se vê consumida por ele de modo tão absoluto que só percebe que o seu marido (Stanley Tucci) planeja deixá-la quando ele explicita a sua vontade verbalmente.

Desnorteada, ela segue com o ofício, mas o seu humor se traduz na rispidez do tratamento com os outros e na fadiga que seu corpo denuncia, inserindo logo ao começo da trama um fator emocional que será determinante para suas ações. Neste estado, ela recebe um pedido de julgamento urgente: um adolescente de 17 anos encontra-se internado com leucemia, mas recusa a transfusão de sangue por ser Testemunha de Jeová.

O pedido legal provém do hospital, que requer legalmente a continuidade do tratamento, mesmo com a oposição do paciente. De maneira pouco ortodoxa, Fiona decide sair do tribunal para ir visitar o garoto e se admira pelo seu charme, estabelecendo uma breve, porém impactante conexão emocional com ele.

“Um Ato de Esperança” se pauta não nos dilemas éticos e religiosos do caso legal (apesar de expô-los), mas no impacto do relacionamento entre a protagonista e Adam (Fionn Whitehead), que passa a vê-la como uma espécie de figura maternal, fonte dos conhecimentos de que foi privado pela criação.

O filme é uma adaptação do livro “A Balada de Adam Henry”, romance do escritor inglês Ian McEwan, responsável pela transcrição do material em roteiro. Estruturalmente simples, a história mostra-se relevante pelo profundo delineamento dos seus personagens, conectados em uma teia de questionamentos morais e existenciais.

Fiona, por exemplo, aborda o seu trabalho friamente, pautando-se no escopo de leis para justificar suas decisões. Sua interação com Adam, no entanto, a leva a reflexão sobre o impacto que seu trabalho tem nos indivíduos julgados. Entre cartas, telefonemas e aparições meio bizarras, o adolescente pede a ela motivos para viver que transcendam imperativos legais ou religiosos. Em determinado momento, a pergunta: no que ela acredita? Sem saber responder à questão, a juíza se assombra com o rumo da própria vida.

Assim, nota-se uma transformação em ambas as partes: por um lado, o garoto procura entender o privilégio de sua vida na Terra, desenvolvendo a curiosidade de explorar seus horizontes – e, no processo, confuso como tipicamente adolescente, ultrapassa alguns limites para tentar se aproximar ao máximo do objeto de sua afeição. A protagonista, por sua vez, recebe as visitas insistentes com o assombro de quem sempre cultivou a distância emocional e, subitamente, ao ver essa barreira quebrada, repensa o relacionamento com o seu marido e sua conduta profissional.

Constitui-se, assim, um intricado jogo emocional muito bem traduzido pelo cineasta Richard Eyre, que sabe expor visualmente a subjetividade de seus personagens, seja no uso de planos-sequências para detalhar a correria da rotina de Fiona, seja nos closes que captam as incertezas de Adam.

O sucesso do filme, no entanto, é indissociável da atuação de Emma Thompson, que estabelece o tom da ação dramática. Em uma performance brilhante, ela se apresenta rígida e formal, oferecendo pequenos vislumbres de vulnerabilidade, e se propõe a desconstruir Fiona até o clímax, quando sua personagem permite expor seus sentimentos abertamente.

“Um Ato de Esperança” parte de uma premissa simples para explorar a fundo o seu potencial de discussão, tecendo uma história intrigante pautada no relacionamento entre dois estranhos que se conhecem em circunstâncias extremas. Extremamente bem feito, o filme atesta não só o talento da escrita de McEwan e da direção de Eyre, como o de Thompson, completamente entregue ao papel.   

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 105 min

Gênero: drama

Diretor: Richard Eyre

Elenco: Emma Thompson, Stanley Tucci, Fionn Whitehead, Bem Chaplin

Trailer:

Imagens:

Avaliação do Filme

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