Por Luciana Ramos

Mais do que meros observadores sociais, os artistas têm na sua essência a capacidade de sintetizar problemáticas históricas ou modernas e oferecê-las de volta aos seus consumidores em um formato palatável que os leve a reflexão. Entre fotografia, pinturas, instalações ou livros, transitam mensagens, registros do tempo e da conduta humana. Unindo narrativa, imagem e som, o cinema expande o seu potencial apelativo, sendo uma importante ferramenta artística.

Alguns cineastas conseguem, mais que outros, captarem esta especificidade e trabalharem seus recursos à exaustão. É o caso de Olivier Assayas. Seus filmes, aparentemente simples e fluidos, carregam questionamentos pertinentes à modernidade, depositados tanto na interação entre os seus personagens quanto no modo verborrágico com que refletem o mundo em que vivem.

Em “Vidas Duplas”, ele se propõe a refletir sobre os caminhos da literatura, abrindo vários pontos de discussão. Seria hora de abraçar de vez o digital como modo de leitura? Seriam o Twitter e Whatsapp ferramentas que traduzem uma visão moderna (e sucinta) de comunicação ou apenas aplicativos emburrecedores que tolhem o pensamento analítico? E quanto a invenções como audiolivros, são válidas por oferecerem o mesmo conteúdo ou descrevem certa preguiça dos seus usuários?

São múltiplos os argumentos e visões sobre os assuntos levantados, embasados na disputa entre mídia física e mundo digital. Selena (Juliette Binoche), por exemplo, abole ideias de consumo contemporâneas, advogando pelo cheiro e peso de se ter um livro nas mãos. Seu trabalho como atriz, porém, levanta uma questão adjacente interessante: ao replicar incessantemente a mesma personagem ao longo de várias temporadas de uma série de sucesso (que há muito se conformou a um padrão narrativo), ela exemplifica a reprodutibilidade comercial da arte, que vai trocando originalidade por valor de mercado – vide o interesse do público.

Seu marido, Alain (Guillaume Canet), possui opiniões um pouco mais fluidas: como editor, percebe o apelo do digital, tanto que propõe a transição das obras dos autores que representa, encabeçada pela jovem Laure (Christa Théret). Embora clame pelo valor da arte, age de maneira prática, propondo ao escritor Léonard (Vincent Macaigne) que restrinja os seus livros a fórmulas já aceitas pelo público.  

Este, por sua vez, é o personagem mais curioso, pois representa um extremo da criação literária: a chamada autoficcção. Ainda que seja amplamente aceito o fato de que autores se baseiam em suas experiências para escrever, Léonard leva a questão um passo adiante por ser péssimo em disfarças nomes e acontecimentos. Isto leva à especulação e o aborrecimento das partes envolvidas, como o da sua mulher, Valérie (Nora Hamzawi), que não encara suas lamentações com muita paciência. Seu dilema perpassa toda a trama e serve como alívio cômico, ocasionando em algumas das melhores passagens do filme – como uma envolvendo citações a “Star Wars” e “A Fita Branca”.

Os personagens entrelaçam-se através tanto de encontros casuais quanto outros, mais secretos, que expõem ao espectador as suas vidas duplas. Por trás das aparências, encontram-se imperfeições, enganações, reticências. Ao apostar nesta construção dual, Assayas complementa as proposições reflexivas da literatura com as ambiguidades que permeiam também o comportamento humano.

A maestria com que constrói seu roteiro reflete-se no seu caráter fluido, onde uma argumentação sólida se constrói ao longo de cenas diferentes, que denotam elipses temporais, simbolizando pensamentos em constante evolução. A experiência de assistir a este jogo – pautado na comunicação e voltado para seu debate – é extremamente agradável e recompensadora, potencializada pelo talento do elenco, que reúne grandes nomes do cinema francês, como Binoche e Canet. 

 

*Essa crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de
Cinema de São Paulo.

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 108 min

Gênero: comédia, drama, romance

Direção: Olivier Assayas

Elenco: Guillaume Canet, Juliette Binoche, Vincent Macaigne, Nora Hamzawi, Christa Théret

Trailer:

Avaliação do Filme

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