Por Luciana Ramos

Na biografia que escreveu sobre o cantor David Bowie, Marc Splitz dimensionou a sua importância diante do número de artistas que influenciou – de Lady Gaga e Maddona à Radiohead e Nirvana – tecendo uma cadeia de construção cultural que se soma a cada novo acorde, de profundo impacto na vida daqueles que ouvem suas músicas. Mais do que meros produtos, se bem-feitas elas podem tocar fundo na alma. Nesta lógica, o sucesso é um reflexo da sua importância (tanto no escopo subjetivo quanto cultural), empurrando métricas financeiras a segundo plano.

Mas como poderíamos dimensionar o mundo sem os artistas que o moldaram com suas letras, melodias e provocações? É a partir deste pensamento que o roteirista Richard Curtis (“Quatro Casamentos e Um Funeral”, “Um Lugar Chamado Notthing Hill”) concebe “Yesterday”, comédia romântica que imagina uma realidade que desconhece os Beatles.

Sem maiores preocupações em explicar o fenômeno que origina esta distorção (felizmente), o roteiro trabalha questões como fama, imagem e o funcionamento da indústria musical através da jornada de Jack Malik (Himesh Patel), um rapaz londrino que falhou miseravelmente em ter sucesso como cantor. Após ser atropelado em uma estranha noite de apagão, resolve tocar “Yesterday” para os amigos e é reconhecido como gênio. A sua frustração de pensar ser alvo de uma piada elaborada transforma-se em surpresa quando se dá conta que, na sua nova realidade, Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr nunca se encontraram – e assim, pérolas como “Let it Be”, “Something” e outras nunca foram compostas.

O assombro transforma-se rapidamente em oportunidade já que, sem o reconhecimento de terceiros, Jack poderia facilmente se apossar de todas as músicas e, enfim, deslanchar sua carreira. Ainda que seja incapaz de enxergar a posse do trabalho artístico de outros como “roubo”, ele não escapa da síndrome do impostor, que cresce concomitantemente ao seu sucesso, inseparável e angustiante.

Não obstante, a sua caminhada desliga-se aos poucos da alegria de se criar música – refletida na passagem onde grava na casa de Gavin (Alexander Arnold), pequeno empresário de Suffolk – para a construção de sua imagem e posterior transmutação da arte em negócio: são reuniões com nomes hiperbólicos e a promoção da música como produto, cujo valor restringe-se a critérios financeiros. Jack transita entre os acontecimentos oscilando espanto, pitadas de impaciência e prazer, este tanto fruto do reconhecimento pessoal quanto da vida luxuosa que enfim tem acesso. Tangenciando o seu caminho está Ellie (Lily James), amiga e empresária de longa data, com quem nunca teve um relacionamento sério por se considerar fracassado.

Mesclando as duas esferas narrativas, “Yesterday” demonstra que mesmo uma boa ideia, sem a execução adequada, não se sustenta. Ao priorizar os dilemas amorosos do seu protagonista, o filme relega a segundo plano as questões vitais que coloca em sua premissa, esquivando-se de explorar mais a fundo o impacto cultural dos Beatles. Em um momento, por exemplo, Jack descobre que a banda Oasis também sumiu, abrindo uma porta para o aprofundamento no tema, mas logo o roteiro demonstra esta ser apenas uma piada, repetida à exaustão pela descoberta que itens como Coca-Cola também nunca foram inventados.

Piadas quando estas funcionam em seu nível primário, divertindo o espectador, mas não passam de pequenas gags sem função vital à trama. Caminhando em terrenos clichês até o final, o longa apenas uma vez ensaia dizer algo a mais – na passagem em que Jack faz uma visita ao interior – mas o momento, embora adorável, perde seu impacto por carecer de uma teia bem amarrada de ideias. Não obstante, a versão brasileira impõe maiores dificuldades à experiência por se abster de legendar as letras dos Beatles, trabalhado no filme como principal aspecto do seu valor cultural.

Outro ponto incômodo da produção é a necessidade de encaixá-la aos moldes sociais em voga: ao se referir diretamente à redes sociais, usando emoticons como forma de comunicação, o filme sujeita-se à obsolescência rápida. Não obstante, a câmera provocadora do diretor Danny Boyle (“Trainspotting”, “Quem Quer Ser um Milionário”) parece perdida diante da abordagem direta e simples da história, tornando a inserção de alguns planos distorcidos uma escolha inócua.

Sem grande substância, “Yesterday” sobrevive do carisma dos seus personagens – em especial a do ator Himesh Patel, ótimo como Jack – e do charme inerente às comédias românticas, sem encontrar no seu roteiro relevância que justifique a sua existência.

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 114 min

Gênero: comédia romântica

Direção: Danny Boyle

Elenco: Himesh Patel, Lily James, Kate McKinnon

Trailer:

Imagens:

Avaliação do Filme

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