“A Bela e a Fera” é considerado um marco pelos funcionários da Disney pelo seu impacto na percepção sobre animações. Até então, o estilo era considerado como um gênero infantil e mesmo filmes incríveis como “A Branca de Neve” e “Cinderella” eram apreciados nesse escopo.

Artisticamente detalhados e incrivelmente difíceis de serem executados, os filmes de animação, embora bem recebidos pelo público, não ganhavam o reconhecimento da indústria hollywoodiana, que os relegavam a um patamar inferior aos live-actions. Parece loucura afirmar algo do tipo hoje em dia, visto a profundidade das produções da Pixar e da própria Disney nas últimas décadas, desde “Toy Story” ao “Zootopia”, mas essa era a realidade da época.

Tanto que, nos anos 80, o estúdio sobrevivia de comédias de baixo orçamento com atores que andavam com pouco prestígio, chegando ao ponto de os animadores serem retirados do prédio construído por Walt Disney e realocados em um depósito.

A evidente pouca atenção desprendida ao departamento mudou com a decisão de Roy Disney em 1985 de revitalizar o setor que considerava “o coração da empresa”. Como resultados, surgiram “Uma Cilada Para Roger Rabbit (1988) e “A Pequena Sereia” (1989).

A alta cúpula da empresa, então, decidiu reviver um antigo projeto de Walt Disney, a adaptação do conto de fadas francês “A Bela e a Fera”. A produção já havia sido iniciada e engavetada em duas ocasiões, nos anos 30 e 50, diante da dificuldade de transpor o conteúdo literário para o cinema. Foi contratado o britânico Richard Purdum e, após seis meses de trabalho intenso, todo o roteiro e concepções iniciais de desenho foram abandonadas por serem obscuras.

 

Em seu lugar, assumiram Gary Trousdale e Kirk Wise, que deram uma nova cara ao roteiro ao definir a Fera como ponto de vista principal (já que é sua a transformação interior e exterior) e o uso do feitiço como contexto da trama. Do filme de 1946 de Jean Cocteau, pegaram-se as ideias de um opositor à Fera e da inserção de objetos animados, potencializados pela imaginação do time de animadores.

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No âmbito da curiosidade, há a história do final de Gaston: no primeiro rascunho do roteiro, ele era jogado para ser comido pelos lobos, mas isso foi abandonado por ser considerado sombrio. A ideia, no entanto, foi posteriormente usada em “O Rei Leão” para o desfecho de Scar. Há ainda o fato de “A Bela e a Fera” ser o segundo filme a usar animação computadorizada nas ambientações com uma tecnologia desenvolvida sob encomenda pela então pequena Pixar, que mais tarde viria a compor a Disney.

 

Diante do esmero artístico e narrativo, o filme foi amplamente recebido pelo público em 1991, sendo a primeira animação a ultrapassar a marca de 100 milhões de ingressos vendidos. Porém, a real consagração veio com a indicação a 25 prêmios, dos quais ganhou 21.

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Com a indicação a Melhor Filme ao Oscar do ano de 1992, “A Bela e a Fera” transcendeu os limites até então impostos pela indústria e mostrou o valor da animação enquanto meio de contar uma boa história. Seu reconhecimento é tanto que em 2002 foi escolhido para preservação no National Film Registry pela Biblioteca do Congresso Americano, que possui um acervo seleto de produções que qualifica como “culturalmente, historicamente ou esteticamente significativas”.

 

De fato, mudou a percepção da indústria sobre animações em geral, processo que só cresceu ao longo dos anos. Hoje, são reconhecidas em importantes premiações e tidas por muitos como capazes de atingir uma profundidade dramática muitas vezes superior a de filmes live-action.

“A Bela e a Fera” foi só o começo de uma década marcada por longas que hoje integram o imaginário popular, como “O Rei Leão”, “Alladin” e “Mulan”. Contando de maneira extremamente sofisticada a história de uma fera que não sabe amar e uma camponesa de boa índole, o longa continua a ocupar um lugar especial nos corações dos fãs ao redor do mundo. Para terminar, só mais um fato curioso: o filme foi o primeiro da Disney a ganhar uma adaptação musical na Broadway, onde permaneceu por muitos anos.

Confira nossa crítica da nova versão de “A Bela e a Fera”

 

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