Por Luciana Ramos

Em 1996, Joe Berlinger e Bruce Sinosfky foram contratados pela HBO para filmar um documentário sobre tribunais. O caso em questão envolvia a morte de crianças em West Memphis e os acusados eram três adolescentes. Durante o seu curso, no entanto, os diretores reuniram informações suficientes para duvidar do envolvimento dos garotos, que pareciam estar naquela posição por serem “diferentes” da massa, ou seja, curtirem metal e jogos de RPG.

 

A repercussão da obra foi tanta que deu origem a dois novos documentários diretos, engajamento social profundo a favor dos “West Memphis Three” e a reabertura das investigações. Notou-se, naquele momento, o poder de uma obra audiovisual sobre o curso de uma investigação. Este foi reforçado quando, em 2014, Sarah Koening mudou a maneira de fazer podcasts com “Serial”, devotada a investigar a culpabilidade de Adnan Sayed, condenado 15 anos antes pelo assassinato de sua ex-namorada de colégio. A forma envolvente e minuciosa com que detalhes esquecidos ou mal apurados do processo foram contados nos episódios acarretou em comoção pública suficiente para também reabrir o processo e, assim, conceder mais uma chance à Sayed de provar sua inocência.

Nascia uma tendência: as séries criminais investigativas. A Netflix embarcou na onda com o lançamento de “Making a Murderer”, de extremo sucesso, e “The Keepers”, que devota seu olhar a uma freira assassinada. A serie documental explora os acontecimentos nebulosos em torno desse crime e amplia sua significação à medida em que retrata todos os detalhes mal explicados, suspeitas e lapsos de memória dos sobreviventes.

 

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Contextualizando o lado humano, social e político da questão, o tratamento de “The Keepers” sobre o fato a que se debruça é bem diferente de outras obras do tipo. Ao escolher contar o lado das vítimas e não dos possíveis agressores, a série evita cair na armadilha de contaminar a narrativa com a subjetividade do narrador/diretor e, dessa forma, soar tendenciosa. Nas mãos de Ryan White, a câmera por vezes trêmula fornece a cada um dos nomes envolvidos a possibilidade de se justificar, mostrar o seu lado. De forma imparcial, explica as teorias em aberto que Gemma Hoskis e Abbie Schaub cultivaram com anos de devoção para solucionar o assassinato da professora de Inglês, a irmã Catherine Cesnik.

Sua morte provocou comoção na comunidade, algo que fica claro com a pluralidade de depoimentos colhidos 45 anos após o fato. Mas, como Abbie pontua em certo momento, a série não é sobre o crime, mas o seu acobertamento. De forma angustiante, o espectador acompanha a saga dessas mulheres em tentar recuperar provas e documentos perdidos; lacunas que reforçam a ideia de uma teia criminosa muito mais profunda do que aparenta ser.

Logo ao início, estabelece-se um possível motivo para a morte de Cathy: a sua convicção em acabar com o ciclo de estupros, que se estendia a policiais, empresários e políticos. A rede de abusos sexuais, que tinha estudantes da escola católica Keough como vítimas, era conduzida pelo seu chapelão, o padre Joseph Maskell. Os depoimentos das sobreviventes, entre raiva, pesar e certa confusão, descrevem atos nojentos, que marcaram a vida daquelas pessoas e definiram quem elas se tornaram.

Essas cenas conferem novas dimensões de apreciação sobre a obra, em especial quando se volta a Jean Hargadon, personagem essencial na narrativa. Ao mesmo tempo que se mostra forte por ter construído uma vida saudável apesar de todo o mal a que foi submetida, ela reiteradamente deixa a fragilidade transparecer em seu rosto, um registro de alguém que não consegue superar o que sofreu.

 

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O panorama dos abusos releva, além da má conduta de um homem – o padre Maskell – o trabalho sujo da Congregação Católica de Baltimore em sufocar o caso, sem prestar a necessária assistência às vítimas. Ao fazer isso, “The Keepers” revela-se de certa forma complementar à “Spotlight”, que retrata de forma ficcional o trabalho de jornalistas em desvendar os crimes de padres pedófilos da mesma cidade.

Quando enfim se devota a estudar os suspeitos do crime, a série abre um leque de opções e recusa-se a apontar dedos, deixando a tarefa de tirar conclusões ao espectador. A experiência é frustrante, em certo grau, dada a dificuldade de ligar as pontas soltas deixadas pela investigação, algo acentuado pelo fato de muitos dos envolvidos já terem falecido.

 

O complexo quebra-cabeças criado, mesclando o lado criminal e humano do tema, distancia-se um pouco da perfeição por se apresentar ao começo como a investigação de duas mulheres assassinadas, Catherine Cesnik e Joyce Malecki, e voltar o seu olhar preferencialmente a um lado. Ainda que justificável de certo modo, dada a extensão do caso da freira e a falta de informações sobre a outra garota, é impossível não notar um desequilíbrio no espaço dado em tela para cada crime.

O desnível de tratamento, no entanto, não interfere na experiência que o espectador passa ao longo de sete episódios: angústia, compaixão, nojo, curiosidade. “The Keepers” oferece uma gama complexa de emoções ao detalhar todos os elementos que compõem os crimes que analisam e, mais importante, dar voz às pessoas que não esqueceram do ocorrido e, 45 anos depois, ainda lutam por justiça.

Pôster:

 

the keepers poster

 

Ficha Técnica

Ano: 2017

Número de Episódios: 7

Nacionalidade: EUA

Gênero: documentário

Criador: Ryan White

 

Trailer:

 

 

 

Imagens:

Avaliação do Filme

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