Por Luciana Ramos

 

Em 1953, a família Olson recebia a triste notícia da morte inesperada do patriarca, Frank. Os termos usados para descrever o incidente atormentaram Eric, de 09 anos. A sua reflexão sobre a diferença de significados entre os termos “pular” e “cair” tornou-se a fonte de sua obsessão em descobrir o que realmente aconteceu no quarto 1018-A do Hotel Statler, em Nova York.

 

Seu pai, Frank Olson, era um agrônomo que foi contratado para desenvolver pesquisas sobre armas biológicas no período da Guerra Fria. Atuando em conjunto com a CIA, estudava vetores e doenças em lugares controlados – não só hermeticamente selados no exterior, como também protegidos por uma aura inquebrável de sigilo. A sua morte foi recebida com estranheza e posteriormente justificada como a trágica consequência de experimentos com LSD em civis. Porém, o caráter compulsivo de Eric o fez questionar a narrativa detalhada pela agência governamental à imprensa. “Wormwood” (absinto, em inglês) é o resultado de mais de sessenta anos de suas investigações e molda-se através do seu olhar.

 

 

O diretor Errol Morris adota de forma inteligente o questionamento do conceito de verdade como seu principal tema e, por isso, oferece ao espectador um misto de documentário e ficção. A entrevistas com pessoas que participaram direta ou indiretamente dessa história somam-se a encenações dos possíveis acontecimentos, sempre mostrados com mais de uma variação afim de estender as possibilidades de olhar sobre a narrativa.

 

Assim, o público é convidado a observar os possíveis finais de Frank Olson. Ao longo das décadas, a narrativa que envolve a sua morte mudou consideravelmente e, por isso, os eventos que permanecem misteriosos sofrem, nas mãos do diretor, a inserção da dúvida. Dessa forma, um mesmo episódio é retratado mais de uma vez com pequenas variações que suscitam questionamentos do que é real.

 

Esse trabalho temático reflete-se na estética adotada por Morris. Fugindo do clichê de documentários, que deixam câmeras paradas enquanto seus objetos discursam sobre o tema proposto, ele brinca com as imagens, replicando-as, cortando-as, juntando a filmagens de arquivo ou colagens de jornais de modo que “Woormwood” adquire, no seu caminho, um modo sensorial, palpável, mais imersivo que outras obras do gênero.

 

 

Complementa-se ao trabalho imagético muito bem polido pela edição o caráter investigativo da série. Os eventos de 1953 vão ganhando novos significados ao longo das décadas, a partir de novos fatos que oferecem uma narrativa muito mais complexa do que a inicial. A história não é apenas sobre um suicídio acidental ou experimentos da CIA; é sobre o mecanismo de funcionamento da Guerra Fria, sobre o possível comprometimento do pais em guerras biológicas e, mais profundamente, sobre como órgãos secretos do Governo agiam na figura de “dissidentes”.

 

Ao contrário de outras séries do tipo, como “The Keepers”, é oferecida ao final uma boa ideia do que houve com Frank Olson, ainda que os detalhes permaneçam fora do conhecimento público – para a frustração de Eric. Porém, ao chegar nesse ponto, “Wormwood” já se revelou muito mais do que a busca por explicações racionais escondidas em um quarto de hotel: a série estabelece-se como uma narrativa sobre a incapacidade de um filho em se desligar do que aconteceu ao seu pai e como a sua busca pela verdade o levou a sacrificar muito de si.

 

Em complemento à série, Errol Morris lançou um podcast homônimo onde, em 03 episódios, debate o contexto histórico dos acontecimentos, o projeto da CIA MK-Ultra e o modo como teceu a ficção dentro do molde documental.

 

 

Pôster

 

 

 

Ficha Técnica

Ano: 2017

Número de episódios: 6

Nacionalidade: EUA

Gênero: documentário, biografia

Criador: Errol Morris

Elenco: Peter Sarsgaard, Christian Camargo, Jimmi Simpson, Molly Parker

 

Trailer:

 

 

 

Imagens:

Avaliação do Filme

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