O quê que há, velhinho? Um dos bordões mais conhecidos do mundo da animação, a frase preferida do Pernalonga foi formulada sem intenção de repetição para o curta “Elmer’s Pet Rabbit”, mas a repercussão nos cinemas foi tão positiva que ela acabaria se tornando parte central da sua marca, que se espalha por parques, programas de televisão, filmes, brinquedos…e acaba de completar 80 anos.

A criação do astuto – e levemente sádico – coelho é anterior ao curta de 1941 e recheada de fatos interessantes. Em 1934, o animador Ben Hardaway, conhecido como “Bugs”, recebeu a missão de criar um personagem animado para a empresa que trabalhava, a Schlesinger Pictures, que produzia curtas de animação para a Warner. A única determinação é que fosse um coelho e Ben, sem uma ideia concreta do que queria, decidiu ir com os colegas a um dos sets de filmagem do estúdio, onde estava sendo rodado “Aconteceu Naquela Noite” (1934), com Clark Gable e Claudette Colbert.

O filme é uma comédia ao estilo screwball, pautada na personalidade exagerada de um personagem que atrai outro, o seu oposto, para uma aventura. Além da expressiva bilheteria e uma coleção de prêmios, incluindo 05 Óscares, o longa popularizou o gênero e sedimentou a base utilizada por comédias românticas até hoje. Mas o que Hardaway viu no set naquele dia não foi a clareza do seu legado ou o talento do diretor Frank Capra, mas algo muito menor: Clark Gable encostando em uma cerca e comendo uma cenoura. A postura descontraída do ator, o modo como apoiava o peso do corpo, como cruzava pernas e braços chamou a atenção do animador e virou uma das características principais do Pernalonga. Segundo a lenda, a sua inspiração iria mais longe: ele teria baseado Pepe Le Pew ou Pepe O Gambá no personagem Westley e o Eufrazino em Andrews, o pai de Ellie, personagem de Colbert.

Como se sabe, o processo de animações é bem trabalhoso e longo. Os resultados dos esforços do animador só seriam conhecidos quatro anos mais tarde com a estreia do então chamado “happy rabbit” no curta “Porky’s Hare Hunt” (1938). Este, embora possuísse similaridades com o Pernalonga, como o corpo humanoide, as orelhas grandes e aparecesse comendo relaxadamente uma cenoura, era mais dócil, de formato arredondado e ainda sem caraterísticas vitais do personagem, incluindo seu nome, que foi dado durante a produção do terceiro curta do coelho nos cinemas, em 1939.

Nesta época, foram feitas algumas modificações significativas na sua estética, como a inclusão de luvas amarelas, que posteriormente se tornariam brancas (agindo como uma extensão das mãos) e o corpo cinza, que resultaram da colaboração de uma série de animadores, como Cal Dalton e Charles Thorson. Este, ao testar novos traços do coelho, escreveu na folha de animação “Bug’s Bunny”, ou “o coelho do Bugs”, como Hardaway era conhecido. O nome pegou e foi usado no material promocional do curta “Prest-O, Change-O”, mas só oficializado no ano seguinte, marcando assim 1940 como o “nascimento” do Pernalonga.

Curta “Porky’s Hare Hunt” (1938)

Aos poucos, ele foi adquirindo características que o desvencilharam de animações mais infantis, como as da Disney. Pernalonga é malicioso, inteligente, questiona autoridades, possui um senso de humor e uma disposição para pregar peças que transitam no limite do absurdo. Por ter sido catapultado ao sucesso na época da Segunda Guerra Mundial, participou dos filmes americanos de propaganda, chegando a desafiar Hitler. Depois, em 1949, esteve no romance “Meus Sonhos te Pertencem”, onde dançou ao lado de Doris Day e Jack Carson em trajes, no mínimo, curiosos. 

O deboche do coelho e o flerte com a perversidade das suas animações influenciaram as criações de Hannah-Barbera, que conquistaram espaço ao investirem em produtos para a TV. O sucesso levou à Warner a redirecionar seus esforços financeiros para um programa semanal em canal aberto. Assim, ao longo de 40 anos, Pernalonga esteve na televisão em diferentes atrações, desde a participação consistente no Looney Tunes a cameos em Animaniacs, Tiny Tunes e até em um crossover com o Batman nos anos 90.

Ao longo das décadas, a sua forma foi se aperfeiçoando: ele foi ficando mais comprido, com orelhas maiores e dentes mais proeminentes; também oscilou entre a docilidade inicial, o cinismo bruto e sádico posterior para achar um equilíbrio com o tempo, moldado em uma aura cool de quem está sempre relaxado.

Sua influência transgrediu barreiras e o colocou lado a lado de dois grandes ícones: Mickey Mouse e Michael Jordan. Nos anos 80, a Disney revelou que estava trabalhando em um filme que misturaria live-action e animação dentro do gênero noir e, nas mãos engenhosas de Robert Zemeckis, prometia ser incrível. A Warner achou a proposta incluir os personagens do Looney Tunes no projeto tentadora, mas fez uma grande exigência: o Pernalonga só participaria do filme se tivesse o mesmo tempo de tela do famoso ratinho; essa é a razão para Pernalonga e Mickey aparecerem sempre juntos em “Um Cilada Para Roger Rabbit” (1988).

Em meados dos anos 90, quando era a maior estrela do basquete mundial, Michael Jordan foi convidado para atuar em um filme com a curiosa premissa de que seu esporte salvaria o mundo de alienígenas. Era “Space Jam: O Jogo do Século”, onde Jordan e Pernalonga dividiram a quadra com Patolino, o jogador Larry Bird e Bill Murray. O filme, lançado em 1996, desagradou os críticos de maneira unânime, mas o foi um imenso sucesso de bilheteria. O mesmo não pode ser dito de “Looney Tunes: De Volta à Ação”, de 2003, um fracasso tão retumbante que fez a Warner desistir de novos filmes com o Pernalonga…até o momento.

Mas o personagem continuou vivo em alguns programas de TV, em curtas lançados diretamente na internet e, acima de tudo, no imaginário popular. Agora, fazendo do streaming HBO Max, tudo indica que uma nova geração aprenderá a adorar o astuto coelho que ama cenouras e não perde a oportunidade de falar: “O quê que há, velhinho?”.

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