Em “Dor e Glória”, Antonio Banderas interpreta Salvador Mallo, um famoso cineasta que vive em Madrid. Sua vida financeira é bastante confortável, mas há muito não trabalha – e não tem perspectiva de lançar nenhuma obra nova. Sofrendo uma série de pequenas dores físicas, ele recorre aos analgésicos por alívio, mas se vê de certa forma revigorado após descobrir que um cinema local está restaurando um filme do início da sua carreira e pretende exibi-lo. Diante da notícia, Mallo decide procurar o ator Alberto, com quem não fala há trinta anos.

O longa foi entusiasticamente recebido no Festival de Cannes, sendo taxado pelos veículos internacionais de imprensa como um dos melhores trabalhos do diretor espanhol: somam-se as conotações biográficas às cores saturadas e habilidade em tratar com delicadeza de temas espinhosos.


Confira cinco razões para assisti-lo no cinema:


1.Pessoal, semi-autobiográfico, nostálgico

O fato de o personagem principal ser um diretor já denota um certo caráter introspectivo e autobiográfico, potencializado pela trilha narrativa, embebida de lembranças e avaliações sobre expressivas passagens da vida. O tom intimista se estende às escolhas de produção, já que o longa foi quase todo filmado no apartamento de Almodóvar.


2.Sabe se desviar das expectativas

Devido ao seu caráter autobiográfico, “Dor e Glória” cria uma série de expectativas ao espectador, sendo a comparação mais imediata o clássico italiano “8 ½”. Sabidamente, porém, o filme frustra estes anseios, não sendo propriamente um testamento felliniano sobre a arte e a vida e tampouco um melodrama cáustico. Nas interações com outros personagens – como o ator Alberto – ou nas passagens que exploram o passado de Salvador, muitos caminhos narrativos são abertos, mas o diretor escolhe desviar-se das alternativas clichês, revigorando sua trama a cada virada.  


3. Antonio Banderas

A parceria com Almodóvar em filmes como “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos” (1988) e “Ata-Me” (1989) catapultou internacionalmente a carreira de Antonio Banderas, que se consagrou como um dos atores espanhóis mais bem-sucedidos.

A mais nova colaboração entre os dois exige uma importante função do ator: a de encarnar uma versão do diretor, exprimindo de forma balanceada uma miríade de emoções, que passam da dor física pungente até a gentileza com que olha a mãe, que tanto julgou no passado, na velhice. A sua dedicação às nuances torna sua performance um dos grandes atrativos do longa.  


4. Cores de Almodóvar

Uma das características mais interessantes de Pedro Almodóvar é o modo como trabalha as cores em seus filmes. Escolhendo sempre tons pictóricos fortes em sua máxima saturação, o diretor usa o recurso visual como forma de delineamento das personalidades e sentimentos de suas personagens, além de pontuar suas (in)adequações ao mundo que os cerca. O seu novo filme segue o molde estético dos anteriores, oferecendo composições visuais fortes e belíssimas.


5.Foi aplaudido de pé em Cannes

O Festival de Cannes tem algumas particularidades que o tornam especial, sendo a mais notável a recepção do público aos filmes exibidos. Sem acanhamento, as pessoas da plateia demonstram seus sentimentos ao final da projeção tanto na forma de vaias como de aplausos. Assim, medir cada minuto deste entusiasmo se tornou uma métrica importante.

“Dor e Glória” foi ovacionado de pé durante 15 minutos, o que não só sedimentou sua qualidade como o colocou a frente de outras produções (como “Era Uma Vez em Hollywood”, de Tarantino) na corrida pela Palma de Ouro. Infelizmente, o filme de Almodóvar saiu de mãos vazias – porém, em agosto, o diretor receberá um prêmio especial pela sua carreira em outro festival super importante, o de Veneza.

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