Ao assistirmos um filme, nem imaginamos o gigantesco trabalho de inúmeros profissionais para construir um arcabouço imagético e sonoro que seja realmente capaz de engajar e emocionar as pessoas. A dimensão de “Duna” – da construção do deserto de Arrakis ao design de produção indoor – fornece um vislumbre da hercúlea tarefa de transformar a visão literária de Frank Herbert em uma experiência cinematográfica palpável.

Um dos aspectos fundamentais da produção é o som criado pelos designers Theo Green e Mark Mangini. Partindo do princípio da verossimilhança – o diretor Dennis Villeneuve queria escapar do artificialismo típico de longas de ficção científica – eles apostaram na captação de som comuns que, condensados, concederiam ao filme a dimensão sensorial proposta.

Para construir o monstro de areia que assombra o planeta, Green e Mangini pesquisaram sobre a locomoção de vermes e cobras, mas, ao saberem que a equipe de efeitos visuais buscava referências na grandiosidade de movimentos das baleias, redirecionaram os seus esforços. Porém, os sons típicos da espécie não funcionavam em ambiente tão seco. Decidiram, então, viajar com equipamentos especiais até o Vale da Morte, na Califórnia.

Lá, enterraram microfones à prova d’água na areia desértica em níveis diferentes de profundidade e realizaram inúmeros testes: arrastaram os equipamentos, martelaram a areia e até esmagaram cereais em cima do solo arenoso, tudo para construir o áudio adequado para o clima de Arrakis.  Algumas outras experimentações, já em Los Angeles, foram mais inusitadas. A fim de reproduzir a movimentação do “monstro”, eles colocaram uma camisinha em um dos microfones e arrastaram-no pelo chão. Já para a sequência em que o bicho engole uma máquina de extração de especiarias, Mangini declarou ter colocado um microfone na garganta e sugado o máximo que pôde e, na pós-produção, inseriu ecos que tornaram o som mais parecido com o de um túnel. Os dois profissionais usaram também o rosnado de um cachorro, cantos de baleias e o barulho de cerdas de vassouras para completarem os efeitos do temido monstro.

Para os helicópteros que parecem libélulas, foram gravados barulhos de asas de moscas e miados de gatos. A construção da “voz”, parte da mítica que configura as Bene Gesserit, foi igualmente curiosa: três mulheres idosas e roucas foram contratadas para dublarem algumas falas, tiveram suas vozes mixadas e incorporadas aos diálogos entre Timothée Chalamet e Rebecca Fergunson. Uma dessas é ninguém menos que a cantora Marianne Faithfull, que topou participar da produção por ser amiga da atriz Charlotte Rampling, que atuou como a Reverenda Mohiam em “Duna”.

Para todos os envolvidos no projeto, era de extrema importância a conexão do público com o universo mostrado. Isso se refletiu no trabalho de Green e Mangini (dos 3.200 sons do longa, apenas 04 foram produzidos artificialmente) e na cadeia de produção como um todo, já que uma área influenciava a outra. Hans Zimmer, por exemplo, incorporou alguns desses efeitos em sua trilha sonora.

O diretor Dennis Villeneuve já havia trabalhado com a dupla em “Blade Runner 2049” e os convidou para “Duna” assim que soube que o iria fazê-lo. Sobre o processo de criação dos dois, Villeneuve declarou ao The New York Times: “uma das coisas que mais me encanta no cinema é a combinação de tecnologia da NASA com fita adesiva. Usar um microfone super caro para gravar Rice Krispies (marca do cereal)… isso me move profundamente!”

Theo Green e Mark Mangini concorrem junto a Mac Ruth, Dug Hemphill e Ron Bartlett (responsáveis pela edição dos efeitos sonoros) ao Oscar de Melhor Som pelo exemplar trabalho em “Duna” – e já são favoritos a levarem o prêmio.

 

Fontes: The New York Times e Vanity Fair

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