Por Luciana Ramos

A escritora Tati Bernardi abre o hilário “Depois a Louca Sou Eu” descrevendo uma série de ataques de pânico que sofreu ao longo de sua vida – no trânsito, na festa, quando criança, quando achou que tudo estava (mais) sob controle. Os relatos autobiográficos com uma pitada de exagero do seu livro expõem os dilemas de uma mulher embebida de medo do desconhecido, dos saltos de amadurecimento; em última instancia, de viver.

O humor camufla a dor latente despejada nas páginas de relatos situacionais sem uma grande arquitetura narrativa: são mais lampejos de sentimentos e memórias do que qualquer outra coisa. Exatamente por isso, é brilhante – e uma obra de difícil adaptação para outras mídias.

A versão cinematográfica, que foi adiada em um ano por conta da pandemia do Coronavírus, opta pela embalagem da comédia romântica unida à estética pop para se tornar mais palatável. Seguindo a proposta do absurdo de Bernardi, o roteiro de Gustavo Lipzstein condensa suas experiências na jornada de autoconhecimento de Dani (Débora Falabella), uma mulher aleijada pela ansiedade.

Desde criança, ela sofre com pequenas obsessões (como ver partes de baratas em todos os lugares) e crises de pânico que afetam seriamente sua capacidade de engajamento social. Em chãos de banheiros, salas e outros espaços reservados, ela se deita para tentar conter a sudorese misturada com taquicardia e enjoo enquanto as pessoas ao seu redor a julgam como “uma figura”, nada mais do que um codinome para esquisita.

Claramente, ela sofre com a condição, sentindo-se isolada, e, por isso, busca as mais absurdas fontes de tratamento-terapia-relaxamento: afinal, se nem Freud, Jung e Lacan juntos conseguiram dar conta do recado, quem sabe socar algumas almofadas simbólicas não resolve a questão? Em uma dessas experiências alternativas ela encontra Gilberto (Gustavo Vaz), um rapaz tão paranoico quanto ela, alguém que cai em crise de choro após o sexo por se lembrar que os pais um dia morrerão.

Juntos, eles parecem se completar, mas ele não tem tanta certeza se a união de dois “malucos” (como se referem) seria tão benéfica assim… exacerbando a sensação de inaptidão de Dani, que passa a recorrer a uma série de remédios, em especial o Rivotril, para parecer mais socialmente adequada.

A narrativa da adaptação fílmica sabe explorar muito bem as virtudes da obra original, enfatizando o tabu social acerca das questões de saúde mental. De mãos dadas à percepção alheia da condição da protagonista está o preconceito da sua própria família que, como o longa deixa claro, sofre da mesma condição. Denominada por parentes como “a coisa”, “a bobeira” ou “o encosto”, a ansiedade extrema é jogada debaixo do pano como algo ruim que se deve esconder, sentimento que se funde totalmente à personalidade de Dani e só com muito trabalho e dedicação (sem contar o sofrimento) consegue criar distanciamento suficiente para desconstruir o conceito e começar a se amar.

Esta construção narrativa é tratada de maneira delicada por Débora Falabella, que se deixa levar pelo absurdo das situações, mas os contrabalança com um tom sério que imprime o respeito necessário ao tema, tornando, assim, o filme uma ótima fonte de entretenimento e reflexão.

Já a diretora Julia Rezende mescla o olhar sensível ao tema com uma estética pop, com efeitos diversos. Abusando dos closes e das saturações em momentos-chave, ela explora o vermelho e o verde como contrapontos entre disfunção e normalidade que delimitam imageticamente a saúde mental da personagem. Ademais, insere micro cenas, hipertexto e animações para transmitir as sensações de Dani, escolhas positivas no quesito entretenimento, mas nem sempre muito rebuscadas – como o caso das sequências em que Silvia (Yara de Novaes) aparece em um fundo rosa pink.

Também são pouco inspiradas traduções simbólicas do livro, como as bolinhas de gude, um problema comum em adaptações que carecem do detalhamento de inúmeras páginas descritivas. Neste sentido, algumas passagens hilárias são transportas em curtíssimas gags e acabam por perderem o seu apelo cômico – caso da cena inicial, em que a protagonista inventa uma série de mentiras para não ir a uma despedida de solteira.

O longa também sofre um pouco com a falta de assertividade na discussão sobre os aspectos nocivos de remédios controlados, tratado em tom mais bem-humorado do que reflexivo, um contraponto importante, visto que o Rivotril possui um papel singular na jornada da protagonista.   

Ainda que contenha desarranjos, “Depois a Louca Sou Eu” sabe engajar o público, facilitando a absorção dos seus argumentos. Seu maior impacto está no tratamento aberto e sem filtros de questões relacionadas a saúde mental, ainda tabus em nossa sociedade, mas escancaradas no último ano devido às condições extremas impostas pela pandemia. Aqui é importante o aceno a inteligência com que a equipe de produção soube abordar o sentimento de frustração que assolou a todos cidadãos do mundo em uma série de pequenos vídeos para o Youtube, onde Dani lidava com os novos (assustadores ou fatigantes) protocolos sanitários: um belíssimo e inovador trabalho de divulgação.

 

Confira a coletiva de imprensa com equipe e elenco de “Depois a Louca Sou Eu”

Ficha Técnica

Ano: 2021

Duração: 1h26m

Gênero: comédia, drama

Direção: Julia Rezende

Elenco: Débora Falabella, Gustavo Vaz, Yara de Novaes, Débora Lamm, Evandro Mesquita, Duda Batista

Avaliação do Filme

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