A distância não impediu o clima gostoso de confraternização da coletiva do filme “Depois a Louca Sou Eu”. A Diretora Júlia Rezende e a produtora Mariza Leão juntaram-se em uma sala virtual com o elenco – Débora Falabella, Gustavo Vaz e Yara de Novaes – para debater o processo de adaptação do best seller de Tati Bernardi em obra cinematográfica, os adiamentos sucessivos por conta da pandemia e, acima de tudo, como a obra reflete o momento em que vivemos. A mediação da conversa ficou por conta da crítica Flávia Guerra.

No hilário livro, Bernardi expõe os problemas com crises de ansiedade e síndrome do pânico que sofre desde pequena, mas se agravaram na vida adulta, levando-a a se refugiar no uso de comprimidos para parecer “normal”, definição que ela mesma usa na escrita com o intuito de desafiar sua interpretação. Ao longo de inúmeros relatos sem uma grande arquitetura narrativa, ela expõe dilemas e sofrimentos modernos, facilitando a identificação do público com a obra, ponto essencial que o filme, que se amarra em uma estrutura de comédia romântica embebida por estética pop, consegue manter.

Ao abrir o debate, a diretora Júlia Rezende expôs os motivos do seu desejo em transpor o material para as telonas. Ela crê que o livro define uma geração inteira, onde está todo mundo tentando lidar com muita ansiedade em diferentes frentes – nas redes sociais, em separações, em quebras sucessivas de expectativas – um sentimento que já prevalecia no pré-pandemia e foi alavancado no último ano. Para ela, Tati conseguiu expor tudo isso com muito humor e, apesar das dificuldades, mostrou-se forte, pois conseguiu sobreviver a si mesma.

Elas, que já se conheciam ao terem trabalhado juntas em “Meu Passado me Condena”, foram conversando ao longo dos anos, mas Rezende confessou que o processo de adaptação não foi fácil: “Tinha uma personagem bem definida, muitas situações, mas não tinha uma narrativa linear. Foi difícil transpor para o campo imagético, desafiador para mim como criadora pensar em linguagens e caminhos estéticos”.

Já a atriz Débora Falabella quis se envolver no projeto mesmo antes dele existir concretamente: “Assim que li o livro, comecei a ficar me oferecendo para o papel, mesmo sem roteiro nem nada”, brinca. Ela conta que sua identificação partiu de inúmeras experiências de amigos próximos que sofreram muito por conta da ansiedade. Ao se preparar para o papel, Falabella assistiu inúmeras entrevistas para entender o humor de Bernardi e, após esta compreensão, colocou o material de lado para não correr o risco de caricaturas. Ela disse ter se apegado muito ao roteiro e ter consultado médicos sobre os efeitos de uso prolongado de remédios controlados, situação de sua personagem.

Igualmente importante foi sua abordagem diante do material, já que ela disse que precisava haver um balanço entre as situações, naturalmente cômicas, e sua atuação. Débora disse que, ao mesmo tempo que “se jogava no absurdo”, tentava interpretar as cenas de maneira séria o suficiente para não cair no risco de “fazer pouco caso” de uma questão tão delicada quanto a saúde mental.

A atriz Yara de Novaes vive Silvia, que possui uma relação quase simbiótica com a filha Dani – o que no longa se mostra prejudicial para ambas em determinados pontos. Por isso, optou como seu ponto de partida sua própria experiência como mãe: “Chega uma hora materna que você fica com uma coloração folclórica, que os filhos ficam esperando você falar algo errado e envergonhá-los, me apeguei a isso”.

Já sobre o modo por vezes insensível com que Silvia trata os problemas de Dani, ela o justificou apontando a negação de sua personagem em assumir as próprias dificuldades emocionais: “No roteiro, delineia-se uma relação de fragilidade, de instabilidade psíquica que é geracional, que passa de mãe para filho”. Por isso, para ela, uma mensagem importante construída ao longo da narrativa é conhecer a própria história para ampliar o repertório pessoal e, assim, tornar-se capaz de lidar com algumas frustrações.

Na trama, Gustavo Vaz interpreta Gilberto, uma amálgama de todos os relacionamentos descritos no livro de Tati Bernardi. Para ele, o personagem foi super interessante de interpretar por já “apresentar um contraste de cara: um psicanalista ansioso, com um pé na depressão.” Para ele, a mensagem mais importante do longa é a aceitação das vulnerabilidades: “Os personagens são abertos e um complementa o outro, ambos expressam suas fragilidades sem medo”.

Vaz crê que a obra, embora sirva como entretenimento para todo o público, possa também oferecer o conforto para aqueles que sofrem do mesmo tipo de ansiedade e sentem falta do acolhimento social. Esta sensação de pertencimento, conforme pontuou, é uma das ferramentas principais do cinema.

Obviamente, tratando-se de um filme sobre ansiedade, seria natural perguntar à equipe sobre quanto de suas experiências foram colocadas no filme. Débora admitiu colocar muito de si em Dani: “Eu aproveitei bastante porque eu sou uma pessoa que sofro de ansiedade; aliás, quem não está ansioso no nosso país está alienado. Me inspirei em mim e ao redor porque está todo mundo sofrendo.” Já Gustavo reiterou que, além das suas vivências, confiou muito no roteiro, já que a transposição de texto em imagem foi muito potente, então acreditamos muito no texto e na confiança com a Julia”.

Já Mariza aproveitou para brincar sobre sua angústia como produtora em um trabalho tão detalhado: “Esse filme me deixou muito ansiosa. A Débora tinha 70 locações, 75 trocas de roupa. Tínhamos inúmeras micro cenas, às vezes de 15 segundos de duração, tivemos muito trabalho”, mas reiterou que, apesar de tudo, “o set foi muito calmo e produtivo”.

“Depois a Louca Sou Eu” deveria ter estreado em abril de 2020, sendo removido às pressas do calendário nacional diante do agravamento da pandemia. A ideia de lançá-lo agora, em momento ainda incerto, vem da certeza de Mariza leão da capacidade de diálogo que a obra traça com o momento atual.

Já Julia Rezende falou: “Acho que é um assunto que estava sem pauta, com uma personagem feminina muito forte e que, mesmo com todas as angústias, vive com muita liberdade, então acho que vai ser muito interessante quando o público puder assistir”.

Mariza Leão

Sobre o assunto, equipe e elenco foram perguntados sobre “surtos” nesse período de pandemia, ao que Julia respondeu que não chegou a ter sua saúde mental fragilizada a esse ponto, mas que sabe ser quase impossível passar por essa fase sem angústia, sobretudo no concernente à privação de convivência com pessoas queridas.

Já quando questionados sobre os caminhos tortos buscados pelos personagens para melhorarem suas condições emocionais, Gustavo disse que crê que isso ocorre na trama pois eles “não têm conhecimento do que sentem e, ao invés de buscarem a precisão e nomear o que estão vivendo, primeiro optam por caminhos mais simples de ajuda”. Neste ponto, ressaltou a importância da fragilidade do seu personagem, visto que os homens brasileiros são mais resistentes – por conta de uma estrutura social preconceituosa – a assumirem suas questões publicamente.

Julia aproveitou para pontuar o título do livro, já que Tati Bernardi constrói uma série de personagens disfuncionais ao seu redor, sendo a única taxada de “louca”, o que expõe um caráter sexista na denominação. Sobre o assunto, Gustavo complementou: “Todos nós temos nossos momentos de loucura ou perda de contorno. Enquanto sociedade precisamos avançar e derrubar tabus…o filme bota essas loucuras uma de frente para outra e mostra que estamos juntos nessa jornada bonita que é viver”

A interrupção dos planos iniciais de lançamento possibilitou a exploração de uma outra ferramenta de divulgação, as redes sociais. Ao longo de seis episódios gravados em casa, Débora Falabella interpretou Dani em meio à loucura da pandemia, da incessante lavagem de frutas e sacolas à solidão. Os divertidos episódios de “Diário de uma Pandemia” foram um sucesso e fomentaram um burburinho sobre o filme.

A ideia foi debatida a partir de um simples questionamento (como Dani estaria lidando com tamanha ansiedade?) e trabalhada remotamente entre Júlia e Débora. O primeiro episódio foi escrito por Tati Bernardi e os demais por Gustavo Lipzstein, roteirista do filme. Tudo foi improvisado, conta Débora, e foi muito divertido: “Já tinha uma personagem muito forte, então foi mais fácil, ela já estava bem delineada”.

Sobre a estética, a diretora debateu influências – de Michel Gondry à “Requiém Para um Sonho” e revelou que sempre o imaginou com estética pop. Para isso, buscou lentes grande-angulares que não costumava usar para fazer closes e trazer a sensação de distorção e desconforto: “Isso nos ajudou bastante a entrar na cabeça da Dani”. Além disso, detalhou a escolha da paleta de cores: “Optamos pelo vermelho como signo de algo que paralisa a protagonista e o verde como signo dos períodos em que ela está mais à vontade, com mais liberdade”.

Mariza Leão aproveitou para enfatizar a qualidade do filme, “bordado em detalhes, sempre com uma busca pela excelência”. Falou, também, sobre a beleza da produção nacional: “O cinema brasileiro é tão potente, tão visceral. Acho que a sala de cinema sempre será um templo para se assistir a uma obra, especialmente quando ela trabalha elementos artísticos relevantes”.

Diante da importância do tema e da sua capacidade de abrangência, ela também não descarta uma possível continuação, “talvez em formato serial” e os demais, embora cautelosos, pareceram gostar da ideia de seguir adiante com diferentes jornadas para Dani, Gilberto e Silvia.

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