Luciana Ramos

 

O cinema sempre atuou como um espelho da sociedade, forçando-nos a ver com minúcias as grandes questões que nos cercam, dando chacoalhões em forma de riso ou choque, instigando-nos a sair de nossas cadeiras e fazer algo a respeito. Consolidou-se no superlativo “Dr Fantástico”, de Kubrick, a imagem de homens vis e pouco capacitados decidindo o futuro da humanidade. Esta sequência é devidamente resgatada em “Digger” por Alejandro Gonzalez Iñarritu, que se lança à sátira com ferocidade e bons argumentos, mas dilui o potencial mobilizador do seu filme em piadas rasas e monólogos didáticos.

O filme começa com o retrato de uma manhã tranquila de Digger Rockwell (Tom Cruise), absorto nos cuidados de uma gata moribunda, até que é informado pelo chefe de segurança ambiental, Dr Ganesh (Riz Ahmed) sobre a explosão de uma das suas plataformas de petróleo operadas na Groenlândia. A massa de gelo desloca-se com certa rapidez para a Noruega, onde será capaz de dizimar vilas inteiras.

Após tentar sem êxito todas as manobras diversionistas possíveis, Digger aceita se reunir com o presidente Compson (John Goodman), em estado terminal por um câncer no ânus, e a alta cúpula do seu governo. As soluções propostas naquela sala oval escalam a periculosidade ambiental, levando o mundo à beira do abismo.

A construção desse eixo narrativo é pouco sutil, apelando para a caricatura para explanar de forma um tanto didática uma crítica ao modelo atual de gestão americana, em especial à miopia dos possíveis impactos de disputas geopolíticas na região da Groenlândia, em curso desde o começo do governo Trump.

A provocação de Iñarritu, no entanto, ascende de patamar quando ele decide puxar as cortinas e mostrar ao espectador que tudo visto até o momento é o ensaio de uma peça. Esta apresenta seus próprios conflitos, capitaneados pela insatisfação crônica de Curtis (Tom Cruise), que não consegue encontrar a humanidade em um personagem tão grotesco. Ademais, ele se encontra preocupado com o paradeiro da filha que embarcou em um avião, mas, até onde se sabe, não pousou em lugar algum. A sua tensão pessoal desemboca em uma crise sobre a própria serventia da montagem da peça em um mundo levemente pós-apocalíptico, com os detalhes desse fato se desencadeando aos poucos.

Ao inserir essa camada extra de dramaticidade, o diretor propõe reflexões interessantes sobre a necessidade de catarse por meio da arte e, em contraponto, à uma certa inutilidade na medida em que a obra é a representação de fatos já consumados. É uma crítica em última forma ao seu próprio público, que se deslocará ao cinema para vê-lo alertar de maneira satírica acerca dos caminhos catastróficos tomados pelo mundo e, após rir ou xingar a tela, volta confortavelmente à sua vidinha de sempre, assistindo passivamente os desenrolares de sucessivas crises mundiais.

As duas dimensões, no entanto, não combinam em uma narrativa coesa e, especialmente o tom excessivamente cartunesco da peça afasta o engajamento emocional, anterior à reflexão crítica almejada, do espectador. Os elementos ali apresentados possuem o impacto constrito às limitações da própria narrativa, e a trama ainda peca ao desperdiçar bons personagens, como a irmã do protagonista, vivida por Sandra Huller.

“Digger” é ambicioso, mas traz poucos elementos novos para a pauta. Sofre com os mesmos problemas de “Não Olhe Para Cima” por desconfiar da capacidade interpretativa do espectador, do potencial da arte e, por fim, de qualquer mobilização social, trazendo a apatia como elemento consumado – sem ter as sacadas inteligentes do outro filme. Aqui, a falta de engajamento é mais um produto das falhas do diretor do que do comportamento do público em questão.  

Ficha Técnica

Ano: 2026

Duração: 2h 9min

Gênero: humor, sátira, drama

Direção: Alejandro G. Iñarritu

Elenco: Tom Cruise, Riz Ahmed, Sandra Huller, John Goodman

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