Por Luciana Ramos

 

Mesclando o melodrama com a leveza do olhar de um menino de onze anos, “Feito Pipa” pauta-se no afeto para destilar sobre diversos temas importantes, como identidade, velhice, preconceito, paternidade, entre outros. Longe do dogmatismo, o roteiro aposta na dinâmica entre avó e neto para construir um universo incrivelmente rico e comovente.

Gugu é um garoto de onze anos apaixonado por dança, bijuterias e futebol. Circula entre os ambientes com a firmeza da sua própria identidade, mesmo que isso ocasionalmente lhe custe a paz. Em nenhum momento, exprime hesitação em incorporar os diferentes elementos que lhe trazem felicidade: liberdade é o seu maior trunfo. Essa vivacidade é fruto da fantástica relação que tem com a avó, Dilma, uma força por si só. Destemida, mas carinhosa, ela nutre o gosto pela vida até que, gradualmente, passa a apresentar sinais de demência, colocando todo o mundo de Gugu em risco.

Sua mãe é falecida e seu pai, embora pareça genuinamente se preocupar com ele, é incapaz de aceitar as escolhas do filho, tentando moldá-lo em uma roupagem heteronormativa que soa sufocante. Portanto, na cabeça de Gugu, o que ele precisa fazer é arranjar um jeito de postergar o vindouro afastamento da sua pessoa favorita, recorrendo a recursos comuns ao pensamento da idade. O garoto sabe que se trata de soluções passageiras, pouco eficazes, mas move-se pela urgência de manter viva a sanidade da sua avó.

O relacionamento entre os dois é o coração do filme e é justamente na afetuosidade que reside a sua força. Os conflitos são bem estabelecidos e trabalhados sem maniqueísmos ou excessos de didatismo. Trata-se de um olhar humano sobre um universo bastante peculiar pelas circunstâncias, mas ainda assim universal nos sentimentos que desperta.

Ao centro, estão as atuações maravilhosas de Yuri Gomes e Teca Pereira – carismáticos, detalhistas em suas composições e cheios de vigor – que ditam o tom da produção. Em papel de menor destaque, Lázaro Ramos interpreta Batista, fugindo da vilania rasa ao apostar em um panorama complexo e sensível de um pai que ama seu filho, mas não consegue compreende-lo.

Allan Deberton, que já havia realizado o ótimo “Pacarrete”, dirige “Feito Pipa” com vigor, contrastando bem os ambientes internos e externos. Na casa habitada por Gugu e Dilma, sobram cores, objetos empilham-se e tudo é possível. Do lado de fora, os ambientes são ásperos, duros, representando visualmente a gama de pressões que afetam a vida do protagonista, que resiste sendo um ponto de cor na paisagem sertaneja.

Menos vistoso que os candidatos anteriores a vagas no Oscar de Melhor Filme Internacional, “Feito Pipa” aposta no jogo entre peculiaridade da ambientação e universalidade dos temas, representando uma ótima safra de filmes brasileiros imbuídos de sensibilidade, como “Manas” e “O Último Azul”.

Trata-se de uma obra especial, que explora a complexidade das relações humanas em toda a sua potência a partir do amor entre avó e neto. Belíssimo.

Ficha Técnica

Ano: 2026

Duração: 1h 33 min

Gênero: drama

Direção: Allan Deberton

Elenco: Lázaro Ramos, Yuri Gomes, Teca Pereira, Carlos Francisco

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