O início da história de “Asiáticos Podres de Ricos” é triste: Kevin Kwan teve a ideia de escrever o livro nos meses em que cuidou do pai, que estava com câncer. Para desanuviar as idas e vindas de hospitais, os dois compartilhavam lembranças sobre Singapura, país onde nasceram e há muito trocaram pelos Estados Unidos.

Já tendo experiência como editor, ele decidiu escrever essas memórias, mesclando-as com ficção pautada no romance. Conscientemente, tomou uma decisão no processo de escrita: queria fugir dos estereótipos relacionados aos asiáticos e descrever famílias de influência de Singapura, que silenciosamente exerciam poder há décadas no país.

O potencial do livro foi observado antes do seu lançamento e, em abril de 2013, os estúdios hollywoodianos já farejavam o cheiro do sucesso. Produtores faziam ofertas pelos direitos autorais da obra. Em uma dessas ocasiões, ao ouvir de uma pessoa que a adaptação cinematográfica ficaria mais rentável se os personagens asiáticos fossem mudados para “brancos americanos”, Kwan decidiu lutar para que o conteúdo do seu livro fosse respeitado na transição para o cinema.

Foi assim que optou, diante das inúmeras ofertas, em se associar a Nina Jacobson, ex-presidente da Buena Vista Pictures, que tinha fundado a pequena produtora Color Force – uma opção às margens do sistema. Ela o convenceu através de uma proposta arriscada: produzir o filme de forma independente de modo a preservar sua essência e, então, vender seus direitos de distribuição a um estúdio. O risco provinha da necessidade de angariar altos investimentos afim de traduzir o luxo descrito no livro para a obra cinematográfica, mas isso era uma questão a ser debatida mais adiante.

Kwan vendeu os direitos pelo valor simbólico de um dólar, se associando como produtor para opinar durante o processo e, mais tarde, ter participação nos lucros da bilheteria. A Color Force se associou à recém-lançada Ivanhoe Pictures, uma produtora de Los Angeles especializada em conteúdos “relevantes para a Ásia”.

 

 

Eles financiaram toda a produção, além de atuar como produtora base das filmagens em Singapura. Em comum, todos os envolvidos tinham em vista não só o potencial de lucro da comédia romântica, como seu impacto cultural: “Podres de Ricos” seria o primeiro filme com elenco majoritariamente asiático a estrear nos cinemas americanos em 25 anos (o último foi “O Clube da Felicidade e da Sorte”, de 1993).

Entra aí a questão da representatividade, que permeou o interesse do diretor e do elenco em fazer parte desta produção. Hollywood vem sendo cobrada pelas décadas de whitewashing e representação de minorias através de um olhar reducionista e, portanto, agressivo. A comunidade ásio-americana tem sido bastante vocal em relação à essas questões, questionando, por exemplo, a escalação de filmes recentes como “Ghost in the Shell”. Esse era um público que desejava se ver nas telas, e Jacobson, Kwan e os executivos da Ivanhoe Pictures queriam garantir que isso fosse ocorrer.

Assim, alguns cuidados foram tomados: Peter Chiarelli foi chamado para fazer uma primeira versão do roteiro, retirou excessos e definiu a história principal como o triângulo entre a sino-americana Rachel, seu namorado Nick e a mãe dele, Eleanor. Os toques de autenticidade cultural foram dados pela roteirista Adele Lim, que se voltou especialmente para as tradições da família Young.

Atento aos questionamentos que a sua comunidade proferia nas redes sociais, John M. Chu almejava usar o lugar conquistado na indústria (dirigindo filmes como “Truque de Mestre 2”) para fazer algo mais relevante, mas a ideia de assumir a direção de “Podres de Ricos” foi dada por sua mãe e por sua irmã via e-mail. Ele entrou em contato com seus agentes e conseguiu o emprego. Curiosamente, descobriu que aparece no livro: Kwan é amigo de sua prima, Vivian, e criou um diálogo onde “um primo que nasceu em Cupertino e dirige filmes em Hollywood” é citado.

 

John M Chu orienta Michelle Yeoh no set de “Podres de Ricos”

 

Constance Wu foi um passo além para conseguir o papel e enviou um e-mail diretamente para Chu – algo incomum em uma terra de agentes e contatos. Ela sabia que não poderia participar do projeto devido a sua agenda de gravações na série “Fresh off the Boat” e pontuou isso na mensagem, mas explicou o quanto era apaixonada pelo livro e, por fim, deixava-se à disposição, caso o cronograma de filmagens fosse mudado. E este foi. Por conta do e-mail, Chu atrasou o início das gravações em quatro meses para tê-la como Rachel.

Faltava, então, alguém para interpretar Nick, descrito no romance como alguém “que os homens querem ser e as mulheres querem namorar”; um homem bonito que tivesse nascido em Singapura, mas falasse com sotaque inglês. Uma contadora que trabalhava no escritório da equipe de produção sugeriu Henry Golding, que tinha um programa de viagens pela BBC. Ele nunca tinha atuado na vida, mas convenceu os executivos em uma audição e ganhou o papel.

Tendo todos os aspectos da produção definidos, faltava encontrar uma distribuidora para o projeto. O sucesso do livro causou furor e cinco estúdios brigaram pelo filme. A disputa, no entanto, ficou entre dois players. A Netflix ofereceu liberdade criativa, a promessa de adaptar outros dois livros de Kwan (sequências de “Podres de Ricos” chamadas “China Rich Girlfriend” e “Rich People Problems”, ainda sem tradução) e um salário de sete dígitos para cada produtor.

A Warner Media não oferecia tantas vantagens, mas prometia ampla exibição nos cinemas e contava com Kevin Tsujihara como CEO, um apelo simbólico por ser o único presidente de um estúdio hollywoodiano a ter ascendência asiática. No fim das contas, os produtores acharam que ter um filme deste porte nas salas de cinema (mais uma vez, o primeiro em 25 anos) seria representativo e, portanto, teria um impacto extremamente positivo nas comunidades asiáticas, não só residentes dos Estados Unidos, como as de todo o mundo. Ademais, um possível sucesso poderia abrir portas para que outros projetos similares pudessem ser produzidos, o que seria um importante avanço na questão da representatividade.

Foram cinco anos de inúmeras batalhas com diferentes interessados em jogo, mas Kwan conseguiu traduzir sua visão para o cinema com fidelidade. “Podres de Ricos” foi um sucesso no seu território doméstico, encabeçando a lista de maiores bilheterias por semanas. A China, que se consolidou como importante mercado de filmes americanos, também aprovou o filme, tendo atendido às expectativas de público. Com bons saldos em lugares estratégicos, o filme chega ao Brasil prometendo entretenimento de qualidade ao unir elementos românticos e cômicos em uma roupagem luxuosa.

 

 

Fonte: Vulture

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