Por Luciana Ramos

 

Qualquer experiência cinematográfica requer a conexão de dois lados: a do espectador, que deve se mostrar disposto a absorver e acreditar no que lhe é mostrado em tela, e a do cineasta, que deve construir um mundo factível, com bases sólidas o suficiente para ativar a suspensão de descrença. Dessa forma, pode-se dizer que quanto mais absurdo for o filme, maior o seu trabalho de convencimento.

No caso de “Hereditário”, primeiro longa-metragem do diretor Ari Aster, isto traduziu-se na necessidade de construção literal de dois espaços: a casa que abriga a ação dramática e sua réplica em miniatura, que dialogava com a profissão da protagonista, assim como servia de representação metafórica dos acontecimentos.

 

Toni Colette em Hereditário

Em sua segunda obra, Aster deu um passo além e se lançou na difícil tarefa de trabalhar temas como dor, trauma e seus desdobramentos na fragmentação do vínculo familiar através da jornada de um grupo de jovens americanos em uma comunidade sueca. Sendo esta puramente ficcional, coube ao diretor a criação de um universo compreensível, dotado de regras e costumes próprios, além de uma mitologia regente e história pregressa que a fundamentasse.

O caráter minucioso do trabalho se traduziu, além do roteiro, nos diversos pequenos elementos que os personagens descobrem: dos escritos rúnicos e pinturas nas paredes às roupas festivas de ascendência sueca e escandinava e os rituais mostrados no filme. Ao todo, “Midsommar – O Mal Não Espera a Noite” levou cinco anos de preparação para enfim ser filmado no verão europeu de 2018.

Este processo, segundo o próprio Aster, em entrevista ao podcast Reel Blend, foi extremamente difícil: limitada financeiramente, a equipe não pôde filmar na Suécia (ideia original) e se propôs, então, a achar um campo extenso onde pudessem criar uma comunidade ao mesmo tempo complexa e funcional, como a demonstrada no filme.

O lugar escolhido foi a Hungria, onde o designer de produção Sándor Jani teve somente dois meses para construir dez prédios de um a três andares do zero, além de um totem ritualístico (para a cerimônia da Rainha de Maio). Este processo, apesar de extremamente desgastante, também concedeu maior liberdade para o posicionamento das câmeras: sem as limitações de um cenário comum, esta conseguiu recuar com maior profundidade, revelando a grandeza do local sem perder o foco nos rostos dos seus personagens, possibilitando até experimentações maiores, como uma tomada de cabeça para baixo.

Quando enfim puderam filmar já era agosto, o que levou à equipe a correr para aproveitar o calor e o sol antes da virada de estação. Incapaz de cumprir um calendário normal de filmagens dada a quase inexistência de noturnas, a equipe adotou as chamadas “french hours” como método: dez horas seguidas de filmagem sem direito a pausas para o almoço.

O clima extenuante e o prazo corrido juntaram-se à demora para execução de cada cena dada a estruturação sequencial do roteiro, que exigia cálculos precisos de marcações e, no caso dos rituais, ensaio com os atores e figurantes. Esta conjunção de fatores levou Jack Reynor, intérprete de Christian, a categorizar a filmagem como “bastante difícil”. Ao podcast Little Gold Men ele disse que o cansaço das filmagens extensas se somou ao fato de a equipe ser composta por falantes de três idiomas: inglês, húngaro e sueco. Segundo ele, somente duas pessoas eram fluentes nas três línguas e, embora tivessem servido de tradutores, eram insuficientes para abarcarem o tamanho da equipe de produção.

Todas as dificuldades de filmagem traduzem o caráter ambicioso do projeto, que consegue  superar as expectativas exatamente por mostrar-se complexo e esteticamente rico, atributos derivados do trabalho detalhista de uma equipe competente. Em meio à (propositalmente) desgastante experiência de assistir a “Midsommar – O Mal Não Espera a Noite”, não há como não se admirar pela dimensão de Haagar, a beleza de sua arquitetura, os detalhes encravados nas paredes, as peculiaridades dos rituais e até mesmo do figurino que, embora traduzisse a unidade, continha pequenas discrepâncias de modo a enriquecer os personagens da comunidade.

Neste aspecto, cabe destacar o caráter subjetivo na composição dos trajes dos jovens americanos: ao começo, deslocados da vivência comunal,  usam roupas escuras, opostas ao branco típico dos locais; em seguida, conforme sua aproximação ou rejeição aos costumes testemunhados, vão adotando trajes mais claros ou escuros.

Diante de um longo e intricado trabalho de composição de um universo ficcional que, embora bizarro, também é factível dentro dos seus limites, é impossível não se admirar tanto pela capacidade criativa de Ari Aster, compartilhada com os inúmeros talentos da equipe de “Midsommar – O Mal Não Espera a Noite”, capazes de criar um espetáculo por vezes bonito, por vezes grotesco, mas sempre impactante, que ressoa na mente do espectador muito depois do término do filme.

 

 

Fontes: Indiewire Toolkit, Little Gold Men, A24 Podcast, Reel Blend

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