Por Luciana Ramos

 

Os anos 90 foram marcados pelas mais diversas comédias românticas – muitas encabeçadas por Julia Roberts, que conquistou a fama com esses filmes – mas a história recente do cinema americano parece ter abandonado o gênero. O número e, pior, a qualidade deste tipo de produção caiu acentuadamente, um movimento que pode ser explicado pelo mercado, que voltou seus investimentos para blockbusters, suprimindo o lançamento dos filmes de gênero.

Toda esta lógica já faria a exuberância de “Podres de Ricos”, que custou 30 milhões de dólares, parecer pouco usual. Porém, o ineditismo do longa de John M. Chu vai muito além: é o primeiro produto cinematográfico financiado por um grande estúdio em 22 anos. A batalha para a adaptação cinematográfica do best seller de Kevin Kwan, “Asiáticos Podres de Ricos”, foi longa, árdua e dependeu muito da vontade do autor (que assumiu a função de produtor) em manter a autenticidade da sua obra; em outras palavras, evitar o recorrente whitewashing Hollywoodiano. O resultado do seu empenho é uma visão fabulosa de uma nata asiática que vive em extremo luxo, custeando festas gigantes, consumindo produtos exclusivos, mesclando o ímpeto capitalista à vontade de manter acesa a tradição oriental.

 

 

A trama é apresentada a partir dos olhos de Rachel (Constance Wu), uma jovem americana de ascendência chinesa que, em termos gerais, é extremamente bem-sucedida, afinal, ela é a professora universitária mais jovem da instituição onde trabalha. Sua vida pessoal segue no mesmo passo: ela namora o atraente Nick (Henry Goulding) há cerca de um ano. Quando este a convida para o casamento de um amigo em Singapura, o que significaria conhecer toda a sua família, ela responde com um misto de empolgação e apreensão.

Ao chegar no aeroporto, ela é surpreendida pelo fato de que ele é aparentemente rico, algo nunca citado na relação. A cadeia de eventos que se desenrola a seguir só reforça a sua reação. Estupefata, Rachel descobre que seu namorado não é apenas rico, ele é um dos maiores milionários locais, descendente de uma linhagem tradicional que atua no desenvolvimento da economia asiática.

Embora intimidada pela grandeza das construções e festas, a jovem mantém seu bom humor e entusiasmo, encarando a situação com a segurança de alguém que é muito bem resolvida. Porém, a sua interação com a sogra, Eleanor (Michelle Yeoh), vai minando aos poucos suas convicções. Rachel descobre que seu carisma e sua inteligência não são valores apreciados em uma sociedade pautada pelo dinheiro e pelas aparências. Vista como “ocidental” por ter nascido nos Estados Unidos, é acusada repetidas vezes de não compreender os laços culturais do oriente – como se a rejeição a alguém de outro patamar social fosse plausível de tal justificativa. Consequentemente, ouve comentários sobre sua índole, acusada de estar com Nick por interesses.

Os dias passados em Singapura são regados a festas e intrigas, e Rachel passa por recorrentes provações, que a levam a questionar seu relacionamento. Por um lado, ela ama Nick e eles (fora deste universo) se dão muito bem; por outro, apesar das intenções serias do rapaz, ela duvida haver um modo de conciliar seu romance com o embate recorrente com Eleanor a longo prazo.

 

 

Esta lógica é o centro que rege toda a história de “Podres de Ricos” e, a partir dela, outros elementos são apresentados, como a sofisticação deste grupo de pessoas, exaustivamente explorada. É interessante que esta comédia romântica transite entre dois polos diferentes afim de promover o apelo estético e emocional do espectador, apostando no luxo tanto como um fator atrativo quanto repulsivo.

São inseridos na trama personagens secundários claramente delineados como aliados ou inimigos de Rachel, possibilitando o desenvolvimento da personagem além do seu envolvimento como Nick, também uma maneira de reforçar a sua boa índole e, assim, aprofundar o vínculo estabelecido com o público. Dois deles, Peik Lin (Awkwafina) e Oliver (Nico Santos), atuam também como alívio cômico, algo muito bem-vindo neste tipo de produção. Awkwafina destaca-se na função, sabendo trabalhar os seus diálogos em um nível absurdo que não só é perfeitamente factível neste cenário como maravilhosamente engraçado.

De modo geral, o longa é fluido, dinâmico e incrivelmente divertido. Ainda assim, o roteiro possui alguns furos e algumas conveniências que exigem uma maior suspensão de descrença, mas nada que perturbe o aproveitamento do filme. Como já citado, o longa sustenta-se também pelo seu apelo visual, devidamente captado pelo talento do diretor. John M. Chu trabalha com uma variedade de enquadramentos que exploram as belezas naturais – e estritamente artificiais – de Singapura e, por si só, são um deleite. Uma inserção gráfica feita na primeira cena, que representa a central de fofocas via whatsapp, é muito bem-feita, mas, infelizmente, trocada no restante da projeção por um recurso secular, o boca-a-boca.

É importante pontuar que as qualidades narrativa e estética nada adiantariam se o elenco principal não soubesse potencializar o material. Destacam-se, por isso, Henry Goulding e Constance Wu. Ele, em seu primeiro trabalho no cinema, concede o carisma e charme que seu personagem exige, oferecendo credibilidade a Nick. Já ela brilha como Rachel, iluminando a tela quando aparece e, assim, trazendo o espectador imediatamente para o seu lado. Sendo o ponto de vista da sua personagem o fio condutor da trama, Wu tinha uma grande responsabilidade e soube cumpri-la com talento.

“Podres de Ricos” é uma deliciosa comédia romântica como não se vê há anos: grande, ousada, leve e muito engraçada. Usando o molde básico do gênero, ganha relevância pela representatividade que imprime nos cinemas, algo essencial considerando o peso que a cultura tem. Que venham outros filmes como este.

 

Pôster

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ficha Técnica

 

Ano: 2018

Duração: 120 min

Gênero: comédia romântica

Direção: John M. Chu

Elenco: Constance Wu, Henry Goulding, Michelle Yeoh, Awkwafina, Nico Santos

 

Trailer:

 

 

Imagens:

Avaliação do Filme

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