“Arrested Development” surgiu em 2003 como uma comédia diferente, centrada no jogo de palavras e nas camadas de humor possíveis diante da convivência de uma família extremamente narcisista – e adorável. Embora tenha sido reconhecida pela crítica e ganhado fãs fervorosos, nunca conseguiu construir um público muito amplo, o que levou ao seu cancelamento em 2006, após três temporadas.

A combinação da liberdade criativa da Netflix (e ânsia em produzir conteúdos originais) com a “modinha” de reviver antigos sucessos culminou na concepção de uma quarta temporada, disponibilizada em 2013. Filmados no estilo “Rashomon” (referência ao famoso filme de Kurosawa), cada episódio apresentava um plot para um membro da família Bluth. Sendo assim, a interação entre os personagens – principal trunfo da série – se perdeu em histórias individuais e desconexas.

A repercussão foi obviamente ruim, conseguindo desagradar a todos. Como justificativa, o criador Mitch Hurwitz descreveu seu interesse em “promover uma experiência cômica” para, posteriormente, alegar a dificuldade de unir as agendas dos atores. Segundo relatos de sites especializados, Portia di Rossi, em especial, teria “dado trabalho” por demonstrar desinteresse em voltar a encarnar Lindsay Bluth.

“Arrested Development” parecia ter adormecido mas, no final de 2017, Hurwitz anunciou via Twitter que os Bluth se reuniriam mais uma vez, agora em um mesmo ambiente, compartilhando experiências. Porém, antes que os novos episódios fossem disponibilizados, a quarta temporada sofreu um “remix”, ou seja, foi retirada do ar, reeditada e recolocada na programação. A alteração, por sua vez, foi vital: os 15 episódios individuais de quase uma hora transformaram-se em 22 de meia hora, onde as jornadas dos personagens foram picotadas e coladas juntas para dar a falsa impressão de tê-los quase ao mesmo tempo.

 

 

Uma tentativa tosca de desfazer um erro conceitual e entregar ao público o que queria, o “remix” trouxe mais problemas para a co-produtora da série, a Fox. Pela quarta temporada, cada ator recebeu o seguinte salário: U$ 100.000,00 por participação em um episódio solo sobre seu personagem, U$ 50.000,00 por participações secundárias nos arcos dramáticos dos outros e U$ 25.000,00 por pequenas aparições nos demais episódios.

A iniciativa de reedição da temporada levou alguns dos membros do elenco, segundo o THR, a reivindicarem “compensações financeiras”, já que eles foram pagos por 15 episódios, não 22, e compensados em escalas diferentes de aparição – agora, na nova edição, todos eles têm mais ou menos o mesmo tempo de tela. A argumentação parece fraca e oportunista (já que nenhum deles teve que filmar nada além do combinado por isso) e foi assim que a Fox justificou toda a questão. Porém, ficou o mal-estar.

Este só aumentou quando o comediante David Cross foi acusado pela atriz Charyne Yi via Twitter de fazer comentários pejorativos sobre sua ascendência asiática, algo que tomou uma proporção grande o suficiente para ele se desculpar. Quase em seguida, acusações muito maiores vieram à tona: uma atriz chamada Trace Lysette e a assistente de Jeffrey Tambor, Van Barnes, acusaram o ator de assédio sexual durante o trabalho com ele em “Transparent”, série da Amazon onde ele interpreta Martha Pfefferman.

A gravidade dos relatos, embasados por histórias adjacentes que revelavam um comportamento agressivo dele com toda a equipe levou à empresa de streaming a investigar o caso – e, posteriormente, demiti-lo. Atualmente, a quinta temporada de “Transparent” encontra-se em produção sem ele, o personagem principal, e por isso será a sua season finale. Todo o escândalo, obviamente, contaminou a conversa em torno de “Arrested Development”, o que levou a Netflix a investir em muita publicidade, sem prever a intensa negatividade que isso atrairia.

Jeffrey Tambor sentou-se com Jessica Walters, Jason Bateman, Tony Hale, Will Arnet, Alia Shawkat e David Cross para uma rodada de entrevistas. Durante a conversa com o New York Times, o clima esquentou bastante quando ele, perguntado sobre as acusações contra ele, as negou, reiterando que seu problema consiste em perder o temperamento com a equipe, algo comum aos sets onde trabalha.

Isso levou Jessica Walters a descrever a recente situação onde ele gritou com ela, humilhando-a em frente à equipe. Neste ponto da entrevista (que pode ser conferida na íntegra aqui), ela começou a chorar, afirmando nunca ter sido tratada assim em 60 anos de carreira.

Jason Bateman, que desde o começo encontrava-se em uma posição defensiva, decidiu tomar a palavra, tentando normalizar as ações do colega a algo “comum ao processo de atores” e dizendo que “na indústria, temperamentos difíceis não são raros”. Alia Shawkat, a outra mulher do grupo, interviu e afirmou que atitudes como aquela são injustificáveis e, em um novo momento do entretenimento, as pessoas têm corretamente demandado mais respeito.

 

 

Isso fez Bateman tomar a palavra mais uma vez para, em um claro mansplaining, diminuir a queixa de Walters (que repetia a gravidade do incidente aos prantos) e normalizar um comportamento abusivo, apoiado por Hale e Cross em pequenos comentários. A entrevista terminou com Walters afirmando que, a partir daquele momento, havia superado o acontecimento e, consequentemente, o ressentimento.

Obviamente, uma entrevista em que todos discutem, uma pessoa chora e a outra tenta silenciá-la tornou-se o escândalo midiático que a série não necessitava. Como resultado, o resto da turnê publicitária foi cancelada e os atores do sexo masculino, após serem massacrados na internet, expressaram suas desculpas.

Em 29 de maio, a primeira parte da quinta temporada de “Arrested Development” chegou à Netflix – junto com o anúncio que seria entregue para consideração no Emmy. Os episódios restantes continuam sem data de lançamento por enquanto. A nova jornada da família Bluth, no entanto, foi ofuscada por um mar de escândalos e desarmonia, escancarada na entrevista conjunta do elenco. Somando isso à dificuldade de reuni-los, o desinteresse de Portia di Rossi em continuar atuando (ela expressou no programa de sua mulher, Ellen DeGeneres, que deseja se aposentar e não se disponibilizou para promover a série) e a queda qualitativa em relação aos episódios antigos, fica difícil avistar – ou ansiar – por algo além do cancelamento rápido de um projeto que se tornou uma enorme dor de cabeça.

 

 

O burburinho em torno de “Arrested Development” cessou quando outro revival tomou seu lugar na mídia: “Roseanne” foi subitamente cancelada após um comentário odioso de sua criadora, Roseanne Barr. No Twitter, ela chamou a ex-conselheira do Governo Obama Valerie Jarrett de “cruzamento de Planeta dos Macacos com Irmandade Mulçumana”.

A repercussão negativa veio quase instantaneamente, assim como o posicionamento dos seus colegas (repudiando veementemente a declaração) e da ABC, que emitiu uma nota de cancelamento sumária da série. Desde a sua estreia, “Roseanne” tem desagradado amplamente aos americanos – mas se mostrado apelativo aos conservadores, que elevaram a produção a segunda mais assistida da temporada, apenas atrás de “The Big Bang Theory”.

Porém, os conteúdos dos episódios, enfaticamente espelhando as convicções do presidente Trump, eram tidos como incitadores do ódio, como o que os Conner desconfiam que os vizinhos mulçumanos sejam terroristas. Tamanha falta de tato culminou em uma declaração grotesca que levou ao seu fim.

Analisando os casos de “Arrested Development” e “Roseanne”, pode-se constatar que nem sempre reviver uma série antiga de sucesso é uma boa ideia. Mesmo atraindo o público cativo, há de se pensar na qualidade dos episódios, na sua necessidade de existir, nos fatores de produção que podem interferir no resultado e, em ambos os casos, no bom senso de promover o mínimo de respeito ao próximo dentro e fora dos sets.

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