“Rafiki”, segundo longa-metragem da diretora Wanuri Kahiu, foi o primeiro filme queniano a ser selecionado para competir no Festival de Cannes. A recepção na Riviera Francesa não podia ser melhor, recebendo boas críticas dos veículos internacionais, que apontaram tanto a sensibilidade artística da diretora quanto a relevância do tema.

Este é pautado no amor entre duas garotas que, jovens, ainda estão se descobrindo e sofrem pelo conservadorismo social; não obstante, provém de famílias envolvidas na política em posições opostas, o que complica o romance. Sendo também um grande mercado para distribuição de filmes, Cannes assegurou que “Rafiki” estreasse na França pouco tempo depois do Festival. Porém, quase concomitantemente, o filme sofreu uma dura censura no seu país de origem.

No dia 26 de abril, o Conselho de Classificação de Filmes do Quênia baniu a exibição do longa em todo o território nacional por “promover lesbianismo”. Nas palavras do chefe do conselho, Ezekiel Mutua, a obra “legitima a homossexualidade contra valores dominantes, culturais e ideológicos da sociedade queniana”. Ele ainda foi adiante e disse que não era contra o filme centrar-se em uma relação homoafetiva, mas que por pregar um “modo de vida”. As escolhas de palavras dele deixam sua homofobia extremamente clara, algo reiterado por Kahiu, que disse ter sido notificada por estas autoridades pelo teor do seu filme ser “esperançoso”.

 

 

O ponto mais estranho foi a demonstração de entusiasmo de Mutua apenas dias antes da decisão de banir o filme. Em entrevista a uma rádio local, ele chamou Kahiu de “uma das melhores diretoras do país” e aplaudiu o fato do filme ter sido selecionado para o Festival de Cannes, dizendo: “Cannes é grande. Fora o Oscar, Cannes é o melhor”.

Enquanto a comunidade cinematográfica internacional assistia abismada ao acontecimento, a diretora decidiu lutar por sua obra e processou o conselho, alegando que a censura feria os direitos constitucionais do país referentes à liberdade de expressão, tanto no âmbito individual quanto no artístico. Sobre este, declarou ao The New York Times na época: “Nós queremos que adultos possam participar deste diálogo ou simplesmente terem o direito de decidir se querem ou não ver o filme. Nós apenas queremos que eles tenham a habilidade de decidir por conta própria. Isso foi negado”.

Um dos aspectos periféricos da ação legal envolvia a possibilidade de submissão do filme como representante do Quênia na corrida pelo Oscar. Para isso, dentre outros critérios, deveria ser exibido ininterruptamente em seu país de origem por sete dias.

Em uma decisão proferida no dia 21 de setembro, a juíza da Suprema Corte Wilfrida Okwany suspendeu temporariamente a proibição, alegando: “Eu não estou convencida que Quênia é uma sociedade tão fraca a ponto de abalar sua fundação moral ao ver um filme”.

Kahiu, que estava embarcando para a França, expressou sua emoção no Twitter:

 

 

Cabe dizer que a decisão judicial possui caráter temporário, pois visava assegurar a campanha do filme ao Oscar. “Rafiki” foi autorizado a ser exibido durante setes dias em cinemas ao redor do país; não foi, portanto, assegurada a continuidade de sessões após esse período. Ainda assim, a conquista foi celebrada pela comunidade artística queniana. Wanuri Kahiu, após o termino deste período, expressou agradecimentos mais uma vez usando a rede social:

 

 

As argumentações do Conselho de Classificação de Filmes do Quênia na voz de seu representante, assim como a colocação da juíza na deliberação, demonstram que o Quênia ainda tem muito a evoluir no que concerne aos direitos homossexuais. Neste momento, o país encontra-se debatendo a modificação de uma lei colonial que criminaliza as relações homoaeftivas. “Rafiki”, enquanto uma expressão cultural, é uma importante parte deste quebra-cabeça pelo seu poder de promover o debate.

Ainda que tenha obtido apenas uma pequena vitória no seu país de origem, agora o filme viaja o mundo, podendo ser conferido até o dia 31 de outubro na Mostra de Cinema Internacional SP. Por toda a relevância de sua história de bastidores, “Rafiki” merece muito ser visto.

 

 

Fontes: The New York Times, The Guardian, Indiewire, Twitter Wanuri KahiuBuzzFeed News

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