Por Luciana Ramos

No curioso banheiro do apartamento da amiga Maxine (Greta Lee), Nadia (Natasha Lyonne) prepara-se para encarar a sua festa de 36 anos. A data é particularmente difícil por remeter a lembranças da sua mãe (Chloe Sevigny), as quais ela teimosamente tenta se desvencilhar. Mais desafiante para ela, no entanto, é se manter viva até o dia seguinte.

A cada morte, que vem das formas mais curiosas (atropelamento, quedas e dutos de ventilação que caem do teto), a mulher passa a questionar a sua própria sanidade e o mundo ao redor. Tentando desvendar o mistério que a assombra – e que passa despercebido aos que a rodeiam, que experimentam cada interação como se fosse a primeira vez – ela coleta pistas, juntando um pequeno manual de sobrevivência. Aprende, por exemplo, a evitar o cigarro duvidoso de sua amiga, a não procurar o seu gato, a evitar as fatídicas escadas.

Partindo da premissa de looping temporal calcificada na história pop do cinema com “O Feitiço do Tempo”, a série desenvolvida em conjunto por Natasha Lyonne, Amy Poehler e Leslye Headland vai muito além do molde formulaico de uma simples comédia, se comprometendo a tratar a jornada da protagonista com detalhamento. O que a torna interessante, portanto, não é o fato principal em si (a repetição da morte), mas os fatores que as desencadeiam.

A cada episódio, é oferecido um novo olhar sobre o assunto, apresentada uma faceta dos traumas que acompanham Nadia – o que, por sua vez, reverencia as bonecas russas do título. Com a mente aguçada, pouca paciência e humor ácido (ela faz comentários constantes sobre seu “inferno pessoal”), a protagonista prima pela sua autenticidade e independência. O retrato, embora egoísta ao começo, é também fascinante por colocar em uma obra audiovisual uma mulher sem vergonha de ser quem é, que não tem tempo e nem deseja se conformar.

O seu ímpeto individualista, no entanto, é suavizado pelo aparecimento de Alan (Charlie Barnett), um estranho que conhece em um elevador. Quando este ameaça cair, ela o contesta com escárnio: “Ei, cara, você não sabia? Nós vamos morrer”. Ele, em contraponto, explica que “morre toda hora”, o que a choca e faz acreditar que, de alguma forma, suas vidas estão interligadas.

A dinâmica entre os dois é bastante benéfica à série. Enquanto Nadia é impetuosa, Alan é excessivamente metódico, o que o leva a se conformar com suas circunstâncias, visto que a previsibilidade dos acontecimentos o confere um senso de controle que sempre buscou. Sem querer, a interação entre os dois contamina seus comportamentos, o que torna tudo ainda mais interessante.

Ao começo, “Boneca Russa” assume a comédia como forma, explorando logo no primeiro episódio as diversas possibilidades de morte e renascimento. Sem se esquivar completamente do humor, a série aos poucos muda o seu tom, explorando conceitos como o de multiplicidade de linhas temporais para se aprofundar no seu tema principal: o trauma. Nadia e Alan possuem em comum à negação: ele, pela ilusão da felicidade através da construção de uma vida “perfeita”; ela, pela negativa de se comprometer com outras pessoas. Essa argumentação se torna mais potente no penúltimo episódio, quando a mulher dolorosamente relembra o seu passado, explorando a culpa que carrega desde menina.

A construção aprofundada do roteiro promove uma experiência intensamente satisfatória aos espectadores, sabendo mesclar elementos diferentes em um produto ao mesmo tempo palatável e complexo. O sucesso da produção, por sua vez, depende muito do talento de Natasha Lyonne em não só comandar o fio dramático como pontuar cada passo da sua jornada. A atriz oferece um retrato complexo, audaz e absolutamente engraçado, sendo um bom contraponto à atuação de Charlie Barnett como Alan, crível na construção de um personagem muito mais traumatizado do que aparenta ser.

Além dos méritos descritos, a nova série da Netflix também se mostra relevante por ser formado por um time de mulheres talentosas que se dividem entre o roteiro e a direção dos episódios. Juntas, elas oferecem um panorama raro da complexidade feminina, desvendando uma camada por vez.

Ficha Técnica

Ano: 2019

Número de Episódios: 8 (por temporada)

Nacionalidade: EUA

Gênero: comédia, drama, mistério

Criadoras: Natasha Lyonne, Amy Poehler, Leslye Headland

Elenco: Natasha Lyonne, Charlie Barnett, Greta Lee, Chloe Sevigny

Trailer:

Imagens:

Avaliação do Filme

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