Por Luciana Ramos

A manhã em que tudo mudou para os Barber começou como todas as outras: a mãe correu pelo bairro, o pai apressou o filho para a escola. Juntos, no café da manhã, decidiram sobre a viagem das férias. A falta de reação do menino à possibilidade da viagem levou Laurie (Michelle Dockery) a dizer-lhe: “Está feliz? Conte ao seu rosto”. É o tipo de colocação brincalhona que voltará para lhe assombrar mais tarde.

A morte de um colega do jovem Jacob (Jaeden Martell), de 14 anos, mexe com a cidade de Boston, mas, principalmente, com os corredores da escola Newton. Como tudo hoje em dia, especulações de pequenos grupos tomam grandes proporções quando chegam ao terreno online, onde Jake é acusado do crime por seus amigos. As provas são circunstanciais: ele sofria bullying (que serviria de motivação), gostava de exibir uma faca serrilhada e, no momento-chave, demonstrou frieza e falta de empatia, um sentimento tão chocante quanto suspeito.

O seu pai, Andrew (Chris Evans), é o responsável pela investigação e, no primeiro momento, foca os esforços na pesquisa de suspeitos cujo perfil é mais comum a este tipo de crime, o de criminosos sexuais. Ele mira em Leonard Patz (Daniel Henshall), um homem já condenado por aliciamento que mora nos arredores do parque onde Ben Rifkin (Liam Killbreth) foi encontrado, mas esta linha de conduta é abandonada quando é substituído por Neil Loguidice (Pablo Schreider).

Afligidos pela possibilidade de que Jake possa ter algum tipo de envolvimento com o ocorrido, Laurie e Andy tomam rumos bem distantes. Ele, de natureza calculista, convence-se da inocência do garoto e resolve perseguir – sem medir esforços ou limites éticos – a absolvição, contando com a ajuda da detetive Duff (Betty Gabriel) para tanto. Ela, por sua vez, é tomada pela dúvida e pelo medo e, acima de tudo, pela culpa de possivelmente ter criado um assassino.

Sua memória é traiçoeira e resgata momentos antigos que abrem brechas para a especulação do comportamento estranho do garoto. Este processo flagelador se acentua quando Jake começa a ser atendido pela Dr. Elizabeth Vogel (Poorna Jagannathan), especialista em analisar o chamado “gene assassino”, que confirmaria uma propulsão maior a atos violentos. Esta investigação não decorre do acaso, mas da descoberta de todos do passado de Andy: seu pai (J.K. Simmons) cumpre prisão perpétua pelo estupro e morte de uma mulher.

A série trafega por estes e outros ingredientes de suspense em um jogo de especulação muito bem traçado, preocupando-se em apresentar conjecturas que poderiam justificar tanto o envolvimento de Jacob como o de Leonard. A preocupação em não engessar a narrativa com afirmações assertivas é respaldada nas atuações do trio principal. Enquanto Jaeden Martell oferece elementos para inquietações com a sua falta latente de emoção, Michelle Dockery transborda em angústia. Sendo a história contada a partir do ponto de vista dos Barber, a sua insegurança é, por vezes, inquietante ao espectador, embora fundamental para a dubiedade pretendida.

Se contraponto é Chris Evans, talvez o maior destaque da produção. Sem abandonar o caráter calculista do seu personagem, ele transita entre a certeza da inocência (sem embasamento além do amor incondicional) com pitadas de hesitação que apenas transparecem em pequenas reações. É um trabalho excelente do ator que escolheu este material como forma de reinventar sua imagem depois de anos como o Capitão América, tendo servido também como produtor executivo.

A construção da narrativa em pequenas peças que se aglutinam – a genética, o impacto do crime nas famílias tanto da vítima quanto do acusado, o espetáculo da mídia, a celebridade nefasta de Jacob – é enaltecida pelo fantástico trabalho de fotografia. O tom das imagens é sóbrio, pontuado por filtros azulados/acinzentados que reforçam a dureza da jornada dos Barber.

Curiosamente, a porta de suas casas, em oposição, é sempre de um vermelho gritante, associando-a simbolicamente ao tema da minissérie. Em determinados momentos, quando embebidos de fiapos de esperança, raios de sol invadem as janelas. Quando estes se esvaem, a luz se dissolve e as sombras tomam conta. Galgando em pequenas simbologias imagéticas, obtém-se um tom melancólico, a representação visual do estresse experimentado pela família.

A concatenação destes elementos narrativos e estéticos é o que torna “Em Defesa de Jacob” uma obra excelente, talvez uma das melhores do ano. Extremamente cuidadosa e bem pensada, ela ainda soma pontos ao se esquivar da adoção de clichês do gênero que perduram na suposta “necessidade” do espectador em obter respostas. Como a minissérie de Mark Bomback demonstra muito bem, acompanhar a jornada em toda a sua complexidade é sempre bem mais interessante.

Ficha Técnica

Ano: 2020

Número de Episódios: 08

Nacionalidade: EUA

Gênero: suspense, drama, crime

Criador: Mark Bomback

Elenco: Chris Evans, Michelle Dockery, Jaeden Martell, Cherry Jones, Betty Gabriel, J.K. Simmons

Avaliação do Filme

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