Por Luciana Ramos

Em 2015, os canais de comunicação dos Estados Unidos renderam-se à fabulosa história da fuga de dois detentos do presídio de Dannemora, no norte do estado de Nova York. Durante meses, Richard Matt (Benicio del Toro) e David Sweat (Paul Dano) fizeram um túnel no subsolo da construção, explorando a tubulação de aquecimento (desligada no verão) como passagem. A parte mais impressionante, no entanto, não dizia respeito ao ineditismo do fato, mas à participação de uma funcionária do local, Joyce “Tilly” Mitchell (Patricia Arquette), no plano.

Suspeita de envolvimento sexual com ambos, ela foi presa e interrogada sobre os fatos por uma procuradora estadual (Bonnie Hunt). Este é o ponto inicial de “Escape at Dannemora”, minissérie de Brett Johnson e Michael Tolkin que se propõe a reconstruir não só a cronologia dos acontecimentos, como a evolução da dinâmica do trio.

Tilly, como prefere ser chamada, é casada com Lyle (Eric Lange) há mais de vinte anos. Apresentada como rabugenta e entediada, ela se diverte na oficina de costura que dirige dentro do presídio com o detento Sweat em pequenos intervalos na despensa. O sexo entre os dois, cru e rápido, contextualiza o relacionamento logo ao início: para ele, é a oportunidade de conseguir pequenos benefícios; para ela, é o escape do marasmo da sua vida matrimonial, onde deposita romanticamente esperanças de um recomeço.

O comportamento da mulher é olhado com deboche entre os outros presos e um misto de vergonha e acobertamento pelos carcereiros, que agem assim para proteger Lyle, já que ele também trabalha no estabelecimento. A evolução dos mal disfarçados encontros, no entanto, culmina na expulsão de David da oficina. Seu vizinho de cela, Richard, vê oportunidade nesta mudança e se envolve com Tilly, agindo como novo amante e, ao mesmo tempo, cupido dela e do seu amigo. A intenção por trás dos seus atos logo se revela: ele deseja manipular o instinto romântico da mulher para que ela facilite materiais que ajudem na fuga dos dois. Seu plano consiste em abrir uma passagem no subsolo, tarefa que terceiriza para Sweat, mais jovem e em forma.

A ideia, ainda que pareça absurda, é contextualizada na ficção pelo modo com que a dinâmica da penitenciaria é construída. Detentos e funcionários têm, em geral, boa relação: são várias as conversas de tom pessoal que se passam entre corredores, celas e intervalos de trabalho, tudo muito harmônico e aparentemente inofensivo. Alguns carcereiros vão mais além, trocando favores com os presos. O personagem Gene Palmer (David Morse) exemplifica este tipo de comportamento. Sua “amizade” com Richard baseia-se na completude de pequenos trabalhos em troca de quadros assinados pelo “artista”, que claramente possui um talento nato.

Este tipo de interação, por sua vez, abre espaço para Tilly contrabandear instrumentos proibidos dentro de artigos corriqueiros, algo visto com desagrado por muitos, mas sequer fiscalizado. Aliás, a negligência com a segurança é mostrada como um importante componente da trama, símbolo também da hipocrisia com que o caso é lidado pelas autoridades posteriormente.

A minissérie é demarcada por espaços de tempo pontuados ao começo de cada episódio (primeiro meses, depois dias) e realiza um excelente trabalho em construir a tensão dos acontecimentos, sempre mesclando-a com o humor presente na trilha sonora pop chiclete (que reflete o gosto da protagonista), nos diálogos irônicos ou na estupidez com que algumas pessoas agem. Este é um ponto fundamental do roteiro, que depõe tanto a favor quanto contra à produção. Se por um lado a escolha de enquadrar os personagens em tipos facilita a imersão e proporciona boas risadas, por outro, culmina em maniqueísmos que tolhem um pouco do seu potencial.

Os roteiristas não se dão ao trabalho de aprofundar Tilly a ponto de torná-la identificável. Uma série de decisões errôneas, combinadas com doses de irritabilidade e criancice a tornam desagradável, deslocando a empatia para o seu marido Lyle, que não passa de um bobão, pobre coitado casado com alguém que o despreza. O sexto episódio, todo em flashback, deveria exercer o papel de maior contextualização, mas usa o passado dela para alavancar a percepção de que ela é egoísta, além de uma traidora serial. Obviamente, Joyce Mitchell, que viu sua vida retratada na minissérie, odiou a sua representação e não foi nem um pouco tímida nos termos que usou para descrever a produção à imprensa.

Do mesmo sofrem David e Richard. O primeiro é apresentado como introspectivo, inteligente e, acima de tudo, fisicamente empenhado em conquistar a sua liberdade. Já o seu contraponto é tido como impulsivo (do tipo que está sempre a um passo de botar tudo a perder), violento e preguiçoso – embora também sagaz, dado o fato de que a ideia de fuga foi sua. O modo como a ação dramática é conduzida nos faz observar os fatos sob uma luz favorável, somente parcialmente quebrada no citado episódio que explora as histórias pregressas e expõe a periculosidade de ambos.

Grande parte da eficiência imersiva da minissérie vem do talento de Ben Stiller como diretor. Intensificando sua transição para uma posição atrás da câmera com este trabalho, ele sabe construir cenas fortes, oferecendo panorâmicas que exploram a magnitude dos espaços – primeiro, da penitenciária e, posteriormente, da floresta. Com maestria, conduz a eletrizante sequência inicial do quinto episódio, transitando entre o uso de planos objetivos e subjetivos e, assim, explorando a imensidão do trabalho de David em cavar um gigantesco túnel.

A qualidade imagética é ressaltada pelas excelentes performances dos atores, principalmente do trio principal. Como Richard, Benicio Del Toro explora a linha tênue entre genialidade e loucura. Seu oposto, Paul Dano, trabalha na excitação contida, na observação astuta, concedendo humanidade a seu personagem (preso por um crime grave) a ponto de nos fazer torcer pelo seu sucesso.

É Patricia Arquette, porém, que domina as telas. Como Tilly, ela passa por uma grande transformação visual, a ponto de ficar quase irreconhecível. Sua voz muda para um tom bem agudo (e levemente irritante), acompanhada do caminhar arrastado de alguém cansado da vida que tem. Seu engajamento é louvável, prova do seu talento como atriz e, sem dúvida, o maior trunfo da produção.

Ainda que contenha problemas narrativos, “Escape at Dannemora” mostra-se, ao todo, bem construído, deixando o espectador curioso por saber sempre mais do inusitado trio amoroso. Jogando com os limites – sexuais, românticos, legais, morais – constrói um relato envolvente da maior fuga da história recente americana.

Ficha Técnica

Ano: 2018

Número de Episódios: 7

Nacionalidade: EUA

Gênero: crime, drama

Criadores: Brett Johnson, Michael Tolkin

Elenco: Patricia Arquette, Paul Dano, Benicio Del Toro, David Morse, Bonnie Hunt, Eric Lange

Trailer:

Imagens:

Avaliação do Filme

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