Por Luciana Ramos

 

Em uma noite, assombrada pelo material que estudava incessantemente, em meio a pílulas para dormir e os despertares por pesadelos, Michelle McNamara resolveu levantar-se e colocar o que estava sentindo em palavras:

Você foi um modus operandi, o barulho de uma cerca, a brisa fria de uma porta de quintal, uma faca contra um pescoço. Suas fantasias eram vívidas, mas elas nunca deram o barato que você queria. E então, você desapareceu…Janelas virtuais estão se abrindo à sua volta. Você, um vigia supremo, se tornou um alvo envelhecido e lento na mira deles. Sua máscara de esqui não vai te ajudar agora. Um dia, em breve, você ouvirá um carro chegando a sua casa e um motor desligando, passos se aproximando da sua porta. A campainha tocará. Nenhum portão aberto, não poderá mais pular a cerca. Você vai dar um dos seus longos e profundos suspiros, apertar os dentes, se aproximar lentamente da campainha insistente e esse será o seu fim. Você será silenciado para sempre e eu terei sumido na escuridão

Os seus escritos articulam de forma brilhante a frustração concernente ao seu envolvimento com um caso não resolvido, sentimento que resvala em todos nós, espectadores ávidos pelo consumo de séries, filmes e podcasts documentais que exploram ambiguidades de casos suspeitos, questionam o sistema de justiça e, de forma mais superficial, brincam com o senso de detetive que todos gostamos ocasionalmente de explorar.

É esta conexão, tão bem colocada pela diretora Liz Garbus em “Eu Terei Sumido na Escuridão” (baseada no livro homônimo de McNamara), o maior trunfo da nova minissérie documental da HBO. Somam-se às inúmeras pistas e especulações sobre o misterioso assassino os relatos das vítimas, o peso carregado por policiais que não conseguiram fazer valer a justiça, as infinitas possibilidades de solução criminal com o uso de tecnologias novas e, ademais, a atração obsessiva que une pessoas comuns na internet para investigar casos antigos. A existência dos chamados “detetives cidadãos” nos Estados Unidos, uma importante parte da narrativa, é, no mínimo curiosa, pois transita entre limiares das teorias de conspiração e da força do pensamento racional em grupo, que se mostra na série capaz de perceber algo nas entrelinhas de cada relatório policial e, assim, contribuir de fato com o avanço dos casos.

Este era o caso de Michelle, que não se formou na área criminalista, mas valeu-se da leitura voraz de narrativas ficcionais de suspense desde tenra idade para amadurecimento do seu pensamento analítico. Marcada por um misterioso assassinato quando era criança e, posteriormente, pelo abuso sexual sofrido quando tinha vinte e poucos anos, ela assombrou-se ao conhecer detalhes do caso EAR/NOS (em especial pela sua falta de notoriedade) e decidiu explorá-lo à exaustão no seu podcast e em artigos de jornais.

Os anos de inúmeras conversas gravadas, entrevistas, viagens a locais e acessos a mais de 15.000 páginas de processos policiais que tinham em comum um estuprador convertido em serial killer mostram não só o seu afinco como também o nível de detalhamento do seu mergulho na psique de um criminoso que se escondia com máscaras de esqui – algo que a tornou conhecida e respeitada por investigadores em toda a Costa Oeste americana.

O Perseguidor Noturno Original/Estuprador da Zona Leste/Assassino da Golden State possuiu vários pseudônimos ao longo das décadas de 70 e 80, quando aterrorizou a Califórnia. Com um modus operandi especifico, valendo-se da sensação de segurança das pequenas cidades (onde, muitas vezes, as pessoas não trancavam todas as portas e janelas) e sempre preocupando-se na humilhação das vítimas, o homem estuprou 60 mulheres (muitas ao lado dos companheiros que, amordaçados, não podiam salvá-las) e 15 assassinatos em uma progressão cronológica dos níveis de violência caso a caso. É igualmente assombroso e interessante ver as semelhanças dos relatos e perceber pontos de conexão entre eles e, assim, tentar encaixar as peças de um quebra-cabeças psicológico, este bem fundamentado no último episódio em uma narrativa digna de embrulhar o estômago.

Retrato falado do ERA/ONS

O mergulho aprofundado em cada crime se dá por entrevistas com vítimas e seus parentes, pelas exposições das descobertas dos “detetives cidadãos” e policiais que trabalharam nos casos e, na maior parte, pelos escritos de Michelle, que são brilhantes e potencializam a experiência do documentário. O fato destes serem lidos por Amy Ryan, combinados à contextualização nos minutos iniciais do primeiro episódio de que a autora faleceu, adicionam mais uma camada de mistério e pesar. Como seu texto noturno evidencia, ela sofria do que mesmo chamava de “vício em assassinatos” ou, melhor explicando, na possibilidade de resolvê-los, e, neste caso específico, pode-se dizer que o acúmulo de pressões (a criação da filha, os afazeres diários, a investigação e o livro, interligados) foram fatores contribuintes para  o seu destino.

A concatenação de todas estas camadas de discussão atribui uma riqueza narrativa superior a outras obras do gênero. Não obstante, ao final a diretora Liz Garbus decide revelar os bastidores de gravação: microfones aparecem, ela é vista entrevistando à margem do plano, os cenários que remontam a casa de Michelle são desmontados. Revela-se, assim, o caráter subjetivo/ficcional intrínseco a cada obra documental, que vai além do que o diretor decide enquadrar ou o modo com que monta as sequências, mas também resvala em decisões criativas que afetam a experiência de consumo do material (a exemplo das cenas de reconstituição) e, portanto, a sua capacidade de envolver emocionalmente cada espectador, algo que “Eu Terei Sumido na Escuridão” faz com maestria.

Ficha Técnica

Ano: 2020

Número de Episódios: 6

Nacionalidade: EUA

Gênero: documentário, crime

Criadora: Liz Garbus

Distribuição: HBO

Avaliação do Filme

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