Por Luciana Ramos

 

Em meio à confusão e o caos que se instalam durante os eventos da batalha de Nova York, um Loki (Tom Hiddleston) atento e imaturo (já que despido da jornada emocional que o define) aproveita a oportunidade para roubar o Tesseract e, assim, contribui para uma disrupção importante na linha do tempo central que controla o universo.

Capturado pelos agentes da Autoridade de Variância Temporal, ele é convencido a ajudar Mobius (Owen Wilson) a capturar uma variante sua que anda matando Homens-Minutos (funcionários da organização) ao longo de variações tempo-espaciais. Antes, ao ser questionado sobre o que move sua obsessão por subjugar outros povos, Loki atesta que a multiplicidade de opções é fonte de angústias e ressentimento para tais criaturas, e seria o seu papel acabar com a ilusão da escolha.

O ponto interessante desta discussão é que ela encapsula a jornada do personagem que, uma vez tendo observado ser um pião em um jogo temporal de cartas marcadas, passa a clamar pelo livre-arbítrio, provocando efeitos indesejados dentro de uma instituição estática e soterrada pela burocracia. A sua capacidade em conectar-se com Sylvie (Sophia Di Martino), sua variante feminina, alça sua existência a um patamar superior – conforme os ditames da jornada de herói – e conduz Loki a semear questionamentos indesejados dentro da AVT, ruindo seus pilares na base.

Neste sentido, o elo entre o primeiro e último episodio é bastante interessante, já que “Aquele que Permanece” (Jonathan Majors) reproduz os argumentos do “Deus da Trapaça” para justificar um poder desmedido, anunciando-se como um tirano melhor do que o caos que se instalaria com sua derrocada. Sua fala opõe-se a jornadas como a de Sylvie e mesmo a da Caçadora B-15 (Wunmi Mosaku), que descobre fatos indesejados sobre si. Nesse tipo de estrutura de controle, pessoas desvirtuosas ou diferentes são podadas pelas ameaças que representam e, ainda que tal formação advenha de um bom intuito, é inegável o sofrimento causado.

Toda essa discussão narrativa embasa a expansão do MCU, que vem usando as séries da Disney Plus para construir personagens e situações vitais para a fase 4. “Loki” encaixa-se frontalmente neste plano, já que a introdução da misteriosa personagem final e toda a já discutida fundamentação conceitual permeará os demais filmes daqui para frente. Neste ponto, foi bastante interessante a aproximação do até agora referido como “Aquele que Permanece” com a figura icônica de “O Mágico de Oz”. Da besta coberta de fumaça aos guardiões do tempo, o roteiro de Michael Waldron flerta a todo o tempo com o conceito de um “homem comum” (indagação feita por Loki ao conhecê-lo) que acumulou imenso poder por meio da ilusão e do medo, tal como o famoso/temido mágico caçado por Dorothy.

Ao seu dispor, estão inúmeras camadas de burocracia que disfarçam a estrutura organizacional, tornando-a imperceptível aos “batedores de cartão” e, por isso, incontestáveis. Assim como em “WandaVision”, “Loki” inspira-se no passado para construir suas referências estéticas, embora sem tanto refino ou aprofundamento. O mise-en-scène retrôfuturista é chamativo e peculiar, além de servir como um bom contraponto aos espaços mais fantasiosos caraterísticos da Marvel. A clara inspiração sessentista (com animações em linhas angulosas e design ovalados) ganham respaldo na ordenação sufocante a la Jacques Tati ou mesmo nos pôsteres de inspiração soviética que permeiam as paredes e servem para reforçar o pensamento uniforme das massas.

Transitando entre a necessidade de impulsionar o universo expandido do MCU e ser interessante o suficiente como produto independente, “Loki” galopa em ritmo oscilante que culmina em um final anticlimático, onde a ação é preterida pelo diálogo, mas a expectativa de um grande desfecho é frustrada. Uma vez concretizada, a ideia do multiverso paira no ar como promessa das próximas produções – e, assim, acaba despindo a série da sua força.

Em contraponto, Waldron acerta ao investir no potencial de seus personagens. A fundamentação de Sylvie é muito bem-feita e não a exime de conter traços contraditórios – o egoísmo, a vulnerabilidade, a incapacidade em confiar e a persistência, por exemplo – que ajudam na composição de uma personagem feminina multifacetada. Suas interações com Loki elevam as percepções de ambos sobre suas jornadas, criando um jogo de reflexão e (re)interpretação do mundo atípicos em produções do gênero. Dividindo o protagonismo, Sophia di Martino e Tom Hiddleston trazem elementos diferentes à cena (da vulnerabilidade dela ao carisma dele) e alçam a obra um patamar interessante: palatável, porém com um desejável nível de aprofundamento psicológico.

“Loki” condensa humor, ação e bons diálogos em uma narrativa peca em ritmo, mas consegue ser relevante e diferente o suficiente para reter a atenção dos espectadores. A confirmação de uma segunda temporada expande as possibilidades criativas da série, em especial concernente às demais variantes do “Deus da Trapaça”, e apontam para uma boa safra de séries da Marvel/Disney Plus.

Ficha Técnica

Ano: 2021

Número de Episódios: 6

Nacionalidade: EUA

Gênero: ação, aventura, fantasia

Criador: Michael Waldron

Elenco: Tom Hiddleston, Sophia di Martino, Owen Wilson, Gugu Mbatha-Raw, Wunmi Mosaku

Avaliação do Filme

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