Apresentando-se como um whodunnit, “The White Lotus” subverte as expectativas ao se revelar um detalhado estudo de personagens, pautando-se no conflito entre duas classes distintas – os hóspedes e os funcionários do hotel – para debater questões contemporâneas. Os temas são aprofundados através das interações entre eles e expõem, indubitavelmente, suas limitações.

É bastante interessante notar que seus próprios nomes, aspecto fundamental da identidade, são apresentados também vagarosamente, somente quando se faz necessário. Tal escolha denota nas suas delimitações como “tipos” sociais, que incorporam de maneira genérica retalhos de um panorama complexo.

A fim de nos aprofundarmos um pouco mais no modo como o criador Mike White trabalha os personagens da série, fizemos um resumo da jornada de cada um.

HÓSPEDES

Mark Mossbacher (Steve Zahn): um patriarca fraco e com pose de bonzinho que chega ao hotel encucado com a suspeita de câncer testicular. O alívio da resposta negativa é contraposto a uma outra notícia que abala o conceito que possui sobre masculinidade. Com a virilidade impactada, perde qualquer filtro social e passa a despejar pensamentos hipócritas, homofóbicos e misóginos para quem está ao lado, mesmo que este não deseje ouvir. Tão inconsequente quanto os demais, demora a perceber que seu comportamento impacta sua família e, assim, revela sua faceta mais podre.

Nicole Mossbacher (Connie Britton): empresária de sucesso, não consegue se desvencilhar do trabalho e aproveitar os dias de férias tão almejados. Não só necessita manter a aparência de profissionalismo e ataca quem a desafia – caso de Rachel – como se esquiva da firmeza na educação dos filhos, atendo-se a meia dúzia de palavras da onda “wellness” para transmitir uma imagem que não corresponde à realidade. Ademais, mostra-se completamente obtusa em relação às demandas sociais, não eximindo-se de discursos reducionistas e míopes sobre assuntos complexos, como o assédio sexual. Possui algumas das falas mais questionáveis da série.

Olivia Mossbacher (Sydney Sweeney): a jovem se propõe a ser o oposto dos pais, mostrando reiterado desprezo por suas falas. Porém, seu discurso aparentemente progressista (ou “woke”, como diriam os americanos) se contrapõe ao modo como se porta. Ela anda pelos corredores e trata os demais (sendo eles hóspedes ou funcionários) com antipatia e ar de superioridade, fruto de quem se acha dona do mundo, conforme dito por sua própria amiga Paula. A sua relação com esta também se revela mais complicada do que de início, já que aponta para o uso da imagem dela (que é negra) como uma espécie de artigo pessoal que a faz parecer uma pessoa melhor. Outra parte bastante significativa da construção de uma imagem polida é o uso de livros para “compor com looks” – sem se dar ao trabalho de lê-los.

Quinn Mossbacher (Fred Hechinger): o filho mais novo dos Mossbacher é apresentado a partir do estereótipo adolescente que combina uso de eletrônicos (em especial videogames) com o desprezo pelo mundo ao redor. Após um incidente brusco, ele passa a explorar as potencialidades do hotel e, assim, consegue se deixar encantar pelas belezas naturais. Sua jornada, portanto, é inversa a da maioria, já que caminha para um lado mais positivo e recompensador. Só lhe falta a percepção de que sua manutenção em tal paraíso depende diretamente do bolso dos seus pais.

Paula (Brittany O’Grady): convidada da família Mossbacher, ela sente-se incomodada com seus discursos, em especial na maneira como tratam as raízes do povo havaiano e, assim, ignoram todo o processo de demolição possível para a criação do local. Sua raiva cresce conforme embarca em um relacionamento com Kai, funcionário do hotel. Apesar das boas intenções, ela se revela tão míope quanto os demais, já que ignora as consequências dos seus atos naqueles que a cercam. Também se deixa usar por Olivia e aquiesce às suas demandas em nome das férias. Aqui cabe uma observação: como não foi apresentada a sua vida anterior, não é possível compreender o exato motivo que a leva a aceitar o convite. Não possui sobrenome na série.

Tanya McQuoid (Jennifer Coolidge): dotada de brilhos, paetês e saltos altos, é a típica dondoca. Viaja ao local com o intuito de despejar as cinzas da mãe, mas suas carências afetivas a impossibilitam do feito. Ao receber o mínimo de atenção e compaixão por Belinda, funcionária do SPA que se dispõe a ouvi-la, Tanya agarra-se a sua figura, primeiro impondo um jantar (em troca de não fazer um chilique) e, posteriormente, com a promessa de ajudar a “nova amiga” a montar um negócio. Aparentemente desconectada da realidade, ela possui plena consciência do poder que seu dinheiro exerce sobre os outros e pauta suas relações a partir dessa ótica, mudando de interesses pessoais ao sabor do vento.

Shane Patton (Jake Lacy): típico “riquinho mimado”, fica obcecado por não ter a maior suíte do hotel e cria uma série de constrangimentos para obter o que deseja. Suas ações servem como impulsionadoras da ação dramática, visto que afetam Armond ao ponto deste tomar atitudes descuidadas com os demais hóspedes. Sua recusa em não ter o melhor (para, quando enfim conseguir, reclamar) representa a visão de mundo autocentrada em que tudo teoricamente seria seu por direito. Completamente alienado às necessidades dos outros, trata as indagações da esposa com descaso e abertamente se refere a ela como “um troféu”. Quando sua mãe aparece de surpresa para interromper a lua de mel, fica claro que tais deturpações são bradadas como valores familiares.

Rachel Patton (Alexandra Daddario): o completo oposto de Shane, sente-se envergonhada por suas posturas, mas submete-se por não ser do mesmo nível social dele. A discrepância entre a vida anterior ao casamento e sua nova realidade a levam a uma espiral de neurose, passando a questionar suas possibilidades de futuro. Precisa, no entanto, da opinião alheia, já que, apesar de refutar a ideia em alto e bom som, uma vida de luxos lhe é apelativa.

FUNCIONÁRIOS

 

Lani (Jolene Purdy): só aparece no primeiro episódio, mas é essencial na composição de uma crítica social. Uma mulher desesperada que esconde a gravidez para conseguir um emprego e, no seu primeiro dia, entra em trabalho de parto devido ao stress de manter uma fachada limpa, elegante e cordial.

Kai (Kekoa Kekumano): nascido no Havaí, trabalha no hotel em múltiplas funções, incluindo a de dançarino temático nos jantares, o que lhe afronta pessoalmente. Ele enxerga como sua cultura e origem foram transformadas em entretenimento informal, mas não sabe canalizar direito sua raiva até conhecer Paula. Facilmente iludido pelas ideias dela de justiça social, se deixa levar sem atentar para as consequências.

Belinda (Natasha Rothwell): meiga e genuinamente preocupada com o bem-estar alheio, dedica-se mais aos clientes do que necessário. Sua compaixão desperta certa obsessão em Tanya, que passa a tratá-la como amiga/posse/próximo projeto. Deixando-se levar pela ideia de ter seu próprio spa, submete-se aos delírios da hóspede para conseguir o que deseja, sem notar que expõe, no processo, seu lado mais vulnerável.

Armond (Murray Bartlett): simpático e sorridente, o gerente do White Lotus tenta manter a harmonia entre todos, mas afunda-se rapidamente nas drogas após sua recusa em assumir um erro. A cada aposta dobrada – e perdida, visto que é bem mais vulnerável que Shane – ele perde um pouco as esperanças e desfaz-se da máscara de bom anfitrião. A mesquinhez é movida pela raiva de não ter construído nada significativo em anos de trabalho e ainda ter que lidar com a arrogância dos hóspedes.

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