Por Luciana Ramos

 

Ao chegar em um orfanato após a trágica morte da mãe, Beth Harmon (Isla Johnston) tem o cabelo cortado e seus demais pertences jogados fora. Despida do senso de identidade, tão associado à sua criação, ela é moldada como uma folha em branco para futuros pais…mas os dias passam e suas chances de ser escolhida em tão avançada idade são pequenas.

Encontrando estímulo apenas nas interações com Jolene (Moses Ingram) e nas pílulas verdes que lhe são entregues, a menina de nove anos descobre um novo e mágico mundo ao visitar o porão da instituição. Lá, observa o zelador, Sr. Shaibel (Bill Camp), jogar sozinho uma partida de xadrez, o que desperta a sua curiosidade sobre o jogo – tão cerebral, tão enigmático.

As informais aulas que ele lhe dá acendem em Beth uma paixão obcecada: à noite, enquanto todos dormem, ela estuda as jogadas, prevê aberturas, pensa em novos modos de ganhar. Ao contrário do caos que marcou a sua vida, o xadrez desperta prazer pela segurança em saber que, no tabuleiro, cada reação ou movimento do oponente deriva exclusivamente da jogada anterior. Em outras palavras, ela encontra um ambiente em que assume poder e controle, uma sensação tão viciante quanto às drogas que abusa desde tenra idade.

Pautada na dualidade, “O Gambito da  Rainha” traça paralelos interessantes entre controle x vício, abandono x segurança, genialidade x loucura em uma narrativa muito bem ritmada, que gira em torno de inúmeras partidas de xadrez – algumas dominadas pela adolescente (Anya Taylor-Joy) em apenas alguns minutos e outras, anos mais tarde, que exigem mais ferramentas além do talento, como a análise estratégica.

Ao seu redor, a protagonista encontra um mundo rodeado por homens, muitos deles inferiores em talento para o jogo, mas ávidos em lhe “ensinar” novos artifícios e regras, querendo ela ou não. De maneira muito clara, impõe-se sobre Beth uma sociedade profundamente patriarcal e opressora (em especial pela época em que se passa a narrativa, os anos 50 e 60), onde ela é considerada estranha por seu talento, pela sua independência e pela firmeza com que mantém sua independência – agindo até em sentido desafiador, como no caso do “pai adotivo” (Patrick Kennedy). Esta figura, por sinal, é interessante pois reafirma o abandono parental que já sofrera na infância, o que a leva a mover-se com imensa desconfiança entre figuras masculinas.

Já as suas mães, primeiro a biológica (Christiane Seidel) e depois a adotiva, Alma (a ótima Marielle Heller, já conhecida pelo trabalho de diretora), aparecem como símbolos tanto de carinho como de instabilidade, que atuam como gatilhos para sua dependência ou mesmo uma desculpa para a perpetuação do comportamento autodestrutivo. A verdade é que na trama, adaptada do livro homônimo de Walter Trevis, estas duas mulheres são vítimas da mesma sociedade pois, uma vez desprovidas do senso de segurança marital que lhes foi prometido, não sabem como responder e deixam-se levar por impulsos.

Entre diversas camadas de apreciação, embaladas no sedutor pacote do xadrez, surgem outras figuras interessantes na vida de Beth. Jolene, por exemplo, possui uma participação sucinta, mas que traduz muito sobre sua relação identitária com a raça e o preconceito sistêmico; não obstante, discorre sobre a importância de laços afetivos e seus possíveis impactos nas vidas das pessoas queridas. Já Harry (Harry Melling) e Benny (Thomas Brodie-Sangster), enxadristas que desafiaram a invencibilidade de Beth, atuam como personagens de impacto, que marcam e realinham a jornada da mulher quando esta se vê incapaz de enxergar com clareza possíveis movimentos – não só no jogo, como também da sua vida.

A contraposição de valores e ideias reflete-se na fotografia, que passeia livremente em ambientes onde ela se vê mais segura, mas enrijece nas situações sociais em que a protagonista se sente deslocada. Pelo caráter controlado, os torneios de xadrez também recebem enquadramentos mais estáticos, focados muito nos olhares dos oponentes. Os inúmeros closes, aliás, são imensamente atraentes por explorarem a magnitude de Anya Taylor-Joy. Cabe dizer que, além do olhar penetrante, a jovem atriz possui imensa versatilidade, trabalhada nas alterações de postura em diferentes episódios que demarcam o seu senso identitário – ou falta dele.

“O Gambito da Rainha” é enigmático, empolgante, reflexivo e divertido. Extremamente bem escrito, consegue reter a atenção (e aflição) para a arte do xadrez e despertar sentimentos mais profundos através das tortuosas jornadas de Beth, Alma, Jolene e outras mulheres que ousaram em desafiar as normas vigentes e viver por conta própria – tudo isso sob o sempre interessante pano da Guerra Fria.

Ficha Técnica

Ano: 2020

Número de Episódios: 7

Nacionalidade: EUA

Gênero: drama

Criadores: Scott Frank, Allan Scott

Elenco: Anya Taylor-Joy, Marielle Heller, Bill Camp, Moses Ingram,Isla Johnston, Thomas Brodie-Sangster

Avaliação do Filme

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