Por Luciana Ramos

Um bom mistério desenrola-se como uma cebola, camada a camada, diz a narração de “Only Murders in the Building” logo no primeiro episódio. Além de refletir o que está sendo mostrado em cena, a fala também apresenta outra característica fundamental da série: a metalinguagem. Ao tecer uma narrativa onde três vizinhos se unem para solucionar um crime através de um podcast, os criadores Steve Martin e John Hoffman apresentam os elementos clássicos do gênero whodunnit a partir jornada de conhecimento de seus personagens.

O fervor cultural por narrativas que incentivam o Pierrot ou Sherlock Holmes dentro de cada um de nós é antigo, mas explodiu nos últimos anos e, nesse contexto, é impossível não reconhecer o papel desempenhado pelo (excelente) podcast “Serial” (2014). Cruzando apuração jornalística com teorias sobre um crime ocorrido quinze anos antes, a produção do grupo This American Life causou exorbitante sucesso e, assim, propagou a explosão desta nova mídia nos Estados Unidos. O apelo do gênero foi perspicazmente notado por produtores de formatos mais tradicionais, como cinema e televisão, que passaram a investir pesado em seriados e filmes pautados no true crime, jogando com a capacidade intuitiva dos espectadores ao mesmo tempo em que exploram a faceta mais cruel do ser humano.

A sede por este tipo de conteúdo levou Steve Martin a reviver uma ideia antiga, a de um trio de amigos idosos que resolvem investigar crimes no prédio onde moram por terem dificuldades de locomoção. Adequando-a a realidade atual, com a predominância de smartphones e, em conexão direta, o retorno ao consumo de produtos por áudio, Martin e Hoffman admitiram que seria também engraçado incluir algum personagem mais jovem e dinâmico, um bom ponto de equilíbrio aos senhores – entra em cena a jovem Mabel, paralisada pelo passado, mas cuja curiosidade a arrasta para uma aventura inesperada.

A trama começa com Charles, Oliver e Mabel, três vizinhos não muito amigáveis, encontrando-se no elevador em um dia aparentemente comum. Uma quarta pessoa, um jovem chamado Tim Kono, rapidamente cruza o caminho deles. Pouco tempo mais tarde, o alarme de incêndio do prédio toca e, forçados a tentarem se abrigar em um dos tipicamente lotados restaurantes de Nova York, os três se reencontram. A conversa sobre um podcast investigativo inicia um elo entre eles, apesar da defasagem de idades (a garota tem 29 anos; os homens, 70 e pouco), mas este será realmente forjado pouco tempo depois, quando todos descobrem que Tim Kono morreu.

A sede por mais informações conduz os três a terem ações pouco idôneas, como visitar a cena do crime e roubar o lixo do morto. Nesse ponto, Oliver, um diretor de teatro que também pode ser descrito como caçador nato de oportunidades, sugere a produção de um podcast onde a investigação se confunde com gravação, fortemente baseada na esperança satisfatório. Seu caráter megalomaníaco o leva a pensar em múltiplas tarefas, mas é cortado por pragmático Charles, que define: somente investigarão assassinatos ocorridos naquele prédio, o Arconia.

A trancos e barrancos, conseguem estabelecer uma lista de suspeitos – que flutua do principal patrocinador do programa ao cantor Sting – e algumas pistas que desafiam a versão da polícia. Por meio de selfies mal tiradas, perus assados em plena manhã, perseguições de carro que nunca andam (NY é terrivelmente engarrafada) e uma boa dose de plot twists, a série demonstra extrema sagacidade por saber nutrir continuamente a trama de mistério sem se perder somente nessa dimensão.

Como em toda boa narrativa, os desdobramentos das ações dos personagens principais forçam-nos a enfrentarem seus passados:  são apresentadas carências afetivas e traumas que devem ser sanadas ou, ao menos, tratadas caso queiram solucionar o caso. Ainda mais inteligente é a forma como isso é feito, combinando confissões atabalhoadas com recursos estilísticos que oferecem pistas de quem eles são. O exagero de Oliver, por exemplo, é condizente com sua ocupação de diretor de musicais. Seus problemas financeiros aparecem na escolha alimentar, bem como nas suas paredes, preenchidas por sucessos e fracassos sem distinção – e devidamente coroados por uma cortina vermelha, que separa seus ambientes. A sua vontade de fazer algo espetacular provoca frustração em todos, mas, como a série mostra, é também o elemento que o torna capaz de enxergar muito além dos demais e, portanto, genial.

A decoração kitsch do apartamento de Oliver nada tem a ver com a simplicidade geométrica e organizada de Charles, que confirma a sua banalidade. Seguido por versões peludas de bichos de pelúcia, ele carrega no peito a saudade de Lucy, filha de sua ex-namorada, também presente no aroma da cozinha, cheirando a omeletes. A não-ação que o define contrapõe-se com seu personagem mais famoso na TV, Brazzos, e o crime no Arconia lhe oferece a oportunidade de, mais uma vez, sentir um pouco do gosto da aventura. No processo, se vê forçado a reavaliar sua solidão.

Já Mabel, que completa o trio, é uma mulher descolada e levemente entediada/aborrecida que embarca na loucura de dois homens bem mais velhos por conta da vontade de elucidar mistérios do passado que a incapacitam. A cada pista nova, ela se vê dividida entre afundar em lembranças ou seguir em frente e, com a ajuda dos novos amigos, redescobre o prazer de viver.

Entre o mistério e a elaboração dos personagens, está o humor, usado à exaustão como recurso eficiente de engajamento. São inúmeras as piadas sobre lacunas geracionais, o apelo dos podcasts e fanatismo subsequentes, as peculiaridades que rondam os moradores do edifício, os pontos fracos de se morar em uma cidade grande, barulhenta e com certa violência, além do foco no modo desastroso com que os personagens conduzem as investigações – especialmente por conseguirem alguns resultados efetivos.

Acima de tudo, há a maestria da dinâmica de três personalidades complementares, que apontam o humor presente em cada fala. Mestres da improvisação, Martin e Short brilham quando usam seus corpos como instrumentos de riso, seja construindo sequências absurdas como a confusão nos elevadores do episódio final, ou quando comentam jocosamente o sobre a falta de adequação diante das mudanças tecnológicas e sociais. Já Selena Gomez consegue a difícil tarefa de se contrapor a dois gênios da comédia, demonstrando seu talento ao oferecer boas doses de um sarcasmo que esconde a empatia pelas duas figuras masculinas.

Um grande elenco de coadjuvantes termina a composição dos peculiares habitantes de Arconia, cuja fachada é real – trata-se do tradicional edifício Bernold, construído em 1908 e localizado no Upper West Side. O grande pátio verde (espaço é um luxo não comum aos nova-iorquinos) e a geometria das janelas, que aproximam moradores de andares diferentes, concedem sofisticação à produção. A elegância casa com certa ousadia na tradução das personalidades e traumas de Charles, Mabel e Oliver em sequências com estéticas variadas – do teatro à animação. Ao caldo cultural soma-se a ótima trilha sonora de Siddharta Khosla, que referencia o podcast “Serial” nas incisões de instrumentos de corda que aparecem em pontos fundamentais da trama.

Condensando humor, mistério e humanidade, “Only Murders in the Building” é um prato cheio para fãs de séries sagazes e leves. Extremamente bem escrita, deixa pontas soltas para uma segunda temporada, já confirmada pelos showrunners, aquecendo os corações dos fãs de true crime – ou apenas de televisão de qualidade.

Ficha Técnica

Ano: 2021 – em andamento

Número de Episódios: 10

Nacionalidade: EUA

Gênero: comédia, crime, drama

Criadores: Steve Martin, John Hoffman

Elenco: Steve Martin, Martin Short, Selena Gomez, Nathan Lane, Amy Ryan, Aaron Dominguez, Julian Cihi, James Caverly

Avaliação do Filme

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