Por Luciana Ramos

 

Confrontado com a possibilidade de passar boa parte da vida na cadeia, Randall McMurphy (Jack Nicholson), um boa-vida do tipo espertão, transforma o seu julgamento em um espetáculo, levando todos os presentes a acreditarem na sua loucura. Comprometido com a percepção de que a vida em um hospital psiquiátrico é sua melhor opção (de fuga, inclusive), ele mantém a fachada instável, mas se vê incapaz de convencer a enfermeira Ratched (Louise Fletcher).

Seu aspecto sisudo – os lábios retorcidos, os olhos atentos – representa tudo de McMurphy mais odeia: o establishment. Em “Um Estranho no Ninho”, obra-prima de Milos Forman, ela representa a burocracia, o controle, o enquadramento da liberdade do pensamento em regras, doses e horários. A sua figura foi tão impactante que rendeu a Louise Fletcher um Oscar (ela, filha de pessoas com deficiência auditiva e verbal, fez um dos discursos mais tocantes da história da Academia, vale a pena procurar) e tornou a personagem um símbolo cinematográfico de opressão – e embora vilanizada no filme de Forman, cabe dizer que ela tinha suas razões.

A força de Ratched levou muitos a questionarem o que exatamente Ryan Murphy gostaria de fazer com a personagem em sua adaptação para uma série da Netflix, com quem fez um contrato milionário. Seria uma história sobre um paciente? Sua vida fora do hospital? Acontecimentos pregressos aos de “Um Estranho no Ninho”?

Ao realizar a árdua e agonizante tarefa de assistir aos oito episódios da primeira temporada de “Ratched” (que já foi renovada), percebe-se facilmente que nenhuma das opções acima foi escolhida com profundidade, embora todas foram salpicadas em uma trama tão sem nexo quanto fetichista. Em um emaranhado de motivações, mudanças súbitas de personalidade e transtornos mentais dos mais variados, a série é tão glamurosa quanto ofensivamente vazia.

Mildred Ratched (Sarah Paulson) é apresentada com características semelhantes à personagem que a inspirou: é grosseira, sem nenhum traço de humor e facilmente assume a narrativa das conversas, exercendo um tipo de dominação assustadora. Seu desembarque na pequena cidade de Lucia resguarda algo de misterioso, assim como a forma com que se infiltra no único hospital psiquiátrico da região, ao qual servirá de enfermeira.

Logo fica clara a sua intenção de se aproximar do condenado Edmund Tolleson (Finn Wittrock), um jovem que matou brutalmente uma série de padres. Os motivos, no entanto, são revelados gradualmente, assim como as motivações do misterioso vizinho Charles (Corey Stoll), os métodos pouco convencionais do Dr. Richard Hanover (Jon Jon Briones) ou a razão da devoção cega da Enfermeira-chefe Bucket (a ótima Judy Davis, completamente desperdiçada neste papel).

Em um jogo de tabuleiro, as peças se moveriam de maneira harmoniosa e singular, encaixando-se em formas inesperadas que conduziriam a um final satisfatório. É exatamente esta dança que a série de Murphy e Evan Romansky (showrunner) propõe…e falha miseravelmente.

Falta consistência narrativa do começo ao fim: o modo de ser de Mildred muda a todo tempo, assim como sua interação com os demais; o Dr. Hanover parece tão doente quanto seus pacientes e, assim como os demais personagens, é colocado em uma espiral exagerada de desenrolares que pouco se preocupam com conexões causais.

As doenças mentais apresentadas, por exemplo, são as mais variadas (transtorno de dissociação identitária, psicopatia) e invariavelmente tratadas de maneira grosseira e estigmatizada, opção proposital que visa oferecer algum tipo de satisfação pérfida ao espectador. Na trama costurada por Murphy, os personagens proferem devaneios sem controle, serram os próprios membros, cometem suicídio por “indicação” de uma enfermeira.

Neste mar de “maluquice” (palavra que carrega um estigma e usada aqui por exatamente representar a visão do autor), duas pacientes são internadas por “lesbianismo” e, ao contrário de tantas outras obras sérias que se propuseram a abordar o cerceamento preconceituoso da vivência feminina na década de 50, “Ratched” expõe um olhar superficial e insatisfatório – com exceção de Gwendolyn (Cynthia Nixon), cujo trunfo se deve muito à excelente atuação de Nixon, que preenche a jornada da sua personagem com uma diversa gama de emoções.   

Em uma tentativa de desafiar o senso de “normalidade”, aposta-se em algum tipo de equilíbrio a partir da exposição de comportamentos questionáveis por parte da equipe do hospital, mas este jogo é feito de forma tão descuidada que não ajuda em nada na discussão do tema, apenas exacerba as falhas de roteiro. Como exemplo, há a jornada de Dolly (Alice Englert), caracterizada como “ninfomaníaca” por ter desejos sexuais (mais uma chance de debate perdido) e que sofre uma reviravolta a la Bonnie e Clyde tão incoerente que chega a ser patética.

As referências a outros filmes, aliás, são ainda mais presentes na estética. A trilha sonora (muito boa, mas usada de maneira histriônica), o clima e as experimentações com cores remetem instantaneamente a Hitchcock; já o abuso do split screen é facilmente conectado ao trabalho de Brian de Palma. Desgarradas da solidez narrativa, no entanto, essas ferramentas visuais perdem impacto, relegando-se a um atrativo insuficiente para segurar o interesse.

Entre trancos e barrancos, a série abre espaço para uma segunda temporada, embora seja difícil acreditar que alguém terá interesse em acompanhá-la. “Ratched” soma-se a “Hollywood” no hall de narrativas levemente baseadas em algo que são completamente desvalorizadas nas mãos de Murphy, que parece imerso em devaneios glamurosos demais para se comprometer a construir roteiros minimamente lógicos.

Ficha Técnica

Ano: 2020

Número de Episódios: 8 (por temporada)

Nacionalidade: EUA

Gênero: crime, drama, mistério, suspense

Criadores: Ryan Murphy, Evan Romansky

Elenco: Sarah Paulson, Jon Jon Briones, Finn Wittrock, Alice Englert, Cynthia Nixon, Judy Davis, Sharon Stone, Sophie Okonedo, Brandon Flynn, Vincent D’Onofrio

Avaliação do Filme

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