Por Luciana Ramos

 

O sucesso da adaptação cinematográfica de “Garota Exemplar” despertou o interesse hollywoodiano pelos outros livros de Gillian Flynn. “Lugares Escuros”, apesar do apelo estelar de Charlize Theron, não conseguiu obter bons resultados nas bilheterias – passando quase despercebido no Brasil. Já “Sharp Objects” (“Objetos Cortantes”) foi visado na mesma época pela HBO para ser transformado em uma minissérie roteirizada pela autora.

Problemas criativos atrasaram o projeto ao ponto de suscitar especulações sobre o seu cancelamento, mas o interesse de Amy Adams e Jean-Marc Vallée pelo material impulsionaram a sua produção, ainda contando com Flynn para tradução da sua essência literária em linguagem cinematográfica.

Como resultado, foram concebidos oito episódios que exploram o assassinato de duas adolescentes, Ann e Natalie, na “pacata” Wind Gap. Avistando a possibilidade de um furo jornalístico, o editor Frank Curry (Miguel Sandoval) manda a repórter Camille Preacker (Amy Adams), natural da cidade, ir ao local investigar os crimes. Com a dupla intenção de agradá-lo (sinal de uma relação mais fraternal do que empregatícia) e se firmar na carreira, ela aceita o desafio – não sem relutar – e essa decisão abre as portas para o seu passado.

 

 

Entre boas quantidades de álcool, disfarçadas em garrafas de água, ela passeia entrevistando moradores e possíveis suspeitos, como Bob Nash (Will Chase), pai de Anne, e John Keene (Taylor John Smith), o introspectivo irmão de Natalie. Nas demais horas, é forçada a conviver com as constantes alfinetadas de sua mãe, além de ter que lidar com a irritante necessidade de atenção de Amma (Eliza Scanlen), a irmã que não conhecia.

Pistas criminais somam-se a flashbakcs de momentos marcantes – e muitas vezes traumáticos – da sua adolescência em um fluxo de pensamento contínuo que guia a narrativa. A montagem fragmentada, já experimentada por Vallée na primeira temporada de “Big Little Lies” ganha potência em “Sharp Objects” por colocar o olhar de Camille como ponto de vista do espectador.

Através dele, descobrem-se paulatinamente fatos que, somados, levarão à resolução do crime. Este, porém, não é o ponto mais importante da minissérie: ao dedicar um imenso tempo à experiência da protagonista, ela consegue descrever bem a vivência de uma pessoa preenchida por traumas, algo traduzido no modo como ela se mutila, escrevendo palavras-chave no corpo.

A relação problemática das três mulheres principais expõe uma dinâmica familiar altamente tóxica: de um lado, a personalidade fria e brutal de Adora (Patricia Clarkson), criada para encarnar a perfeição sulista, que subjuga e classifica as filhas de acordo com o modo que elas seguem suas regras. De outro, estão Amma, manipuladora, que realiza pequenas transgressões, mas necessita da reafirmação materna, e Camille, desafiadora, que evita entrar no jogo psicológico proposto pela mãe e que, por isso, trilhou um caminho muito mais árduo.

Quanto ao mote da série, o assassinato, é interessante notar a insistência dos cidadãos locais em categorizar o serial killer como um homem. O discurso está presente nas conversas entre as “damas” locais, que atribuem ao instinto materno a impossibilidade da fúria assassina. O delegado Vickery (Matt Craven), por sua vez, insiste na falta de força física, algo necessário para arrancar os dentes das adolescentes mortas.

No entanto, ao longo dos oito episódios, fica claro que essa é uma história sobre as mulheres, tanto no enfoque na repórter quanto no gênero das vítimas. Outras personagens de menor expressão, quanto a cheerleader Ashley (Madison Davenport) e a bêbada Jackie (Elizabeth Perkins), ambas aparentemente inofensivas, mostram-se bastante importantes na trama, seja pelo que escolhem fabricar, seja pelo que ocultam. Assim, nota-se facilmente que a somatória das experiências femininas será essencial para o desvendamento do mistério. Esse encaminhamento narrativo é reforçado por metáforas visuais presentes em diversos capítulos, como a rosa que espeta e as aranhas (simbologia tradicionalmente atribuída ao gênero).

 

 

Após estabelecer seus alicerces narrativos e estéticos, “Sharp Objects” perde força ao apostar em repetições, como as incessantes cenas da protagonista bebendo ao veículo e as discussões familiares, que reiteram sempre a mesma tecla. Após o terceiro episódio, as pistas investigativas cessam e a insistência da redução do número de suspeitos a apenas duas pessoas torna esse processo demasiadamente arrastado. É importante notar que cada episódio soma algum ponto relevante nas discussões levantadas pela produção, mas estes diluem-se em passagens descartáveis.

De fato, a minissérie se beneficiaria se tivesse optado por um caminho mais conciso e, portanto, de maior impacto. Ao passo que é admirável a decisão de suavizar o hábito de Camille em se cortar (até para não levantar discussões como as de “13 Reasons Why”), contextualizando as frases talhadas no seu corpo sem apelar graficamente, outras opções na adaptação cinematográfica mostraram-se equívocas.

O roteiro pareceu esquecer-se da importância de alguns personagens, que nunca saíram da caricatura, emergindo para um patamar menos artificial, como são os casos de Alan (Henry Czerny) e Jackie. A história pregressa de Marian (Lulu Wilson) também sofreu, só sendo esclarecida no penúltimo episódio: por ter sido um trauma profundo que moldou sua irmã mais velha (vivida na fase adolescente por Sophia Lillis), as sequências, entrelaçadas à situações do presente, poderiam ser mais bem desenvolvidas.

Nada é tão problemático quanto o desfecho. Gillian Flynn parecia preocupada em mudar um pouco o desenrolar dos eventos de forma a surpreender mesmo os espectadores que já leram o livro. No processo, ela suprimiu pontos essenciais que, conectados, fornecem um entendimento racional dos acontecimentos ocorridos até o momento.

A aposta do último episódio em elipses temporais reforça a falta de controle narrativo, que se apressa e recorre ao clichê na última cena. Com a intenção de justificá-la, são incluídos pequenos vislumbres visuais em meio aos créditos, algo completamente ineficiente. Curiosamente, esta escolha de final é bem menos impactante que a da obra literária, forte por focar no modo como sua personagem principal lida com os acumulativos traumas da sua vida.

Com bons temas e um atrativo plot, “Sharp Objects” estabelece-se como um interessante panorama da hipocrisia do sul dos Estados Unidos, personificada em Adora e combalida por sua filha, Camille. No entanto, perde-se ao meio do caminho, arrastando-se mais do que o necessário, sem saber controlar o ritmo e, assim, prolongar a tensão. Ao final, se esquiva do aprofundamento na psique do assassino e, assim, não alcança seu potencial.

 

Pôster

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ficha Técnica

 

Ano: 2018

Número de Episódios: 8

Gênero: suspense, drama

Criador: Martin Noxon

Elenco: Amy Adams, Patricia Clarkson, Eliza Scanlen, Chris Messina, Elizabeth Perkins, Matt Craven, Taylor John Smith, Sophia Lillis, Miguel Sandoval

 

Trailer:

 

 

Imagens:

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