Por Luciana Ramos

Em seu podcast semanal, Griffin Newman e David Sims analisam a carreira de diretores através da seguinte pergunta: em que momento eles receberam o cheque em branco? Em um jogo que equilibra entretenimento e comércio, muitas vezes pendendo para o segundo lado, quando um artista se torna grande o suficiente para assegurar um montante expressivo de dinheiro para um projeto onde tem liberdade criativa absoluta?

No caso de Greg Daniels, esse ponto de virada é muito óbvio. Ainda que tenha trabalhado como escritor de programas americanos conhecidos como “Saturday Night Live” e “Os Simpsons”, ele deu um salto gigantesco na carreira ao adaptar a série britânica “The Office” para a televisão americana, tendo ao seu lado Michael Schur (que desenvolveu posteriormente “Parks & Recreations”, “The Good Place” e “Brooklyn 99”).

As desventuras que envolviam um trabalho tedioso em uma empresa com expressiva perda de mercado e um chefe, no mínimo, problemático – Steve Carell, maravilhoso como Michael Scott – mostrou-se hilária, envolvente e por vezes emocionante, além de marcar esteticamente um novo tipo de sitcom, baseada no mockumentary.

O público cativo da série cresceu expressivamente com sua exibição em redes de streaming ao redor do mundo (no Brasil, disponível pela Amazon Prime Video) e alavancou a fama de seus integrantes. Eis que, neste momento, Greg Daniels enfim alcançou o cobiçado status hollywoodiano que precisava para o seu cheque em branco e o usou na criação de duas séries: “Upload” (Amazon Prime Video), sobre a perpetuação artificial do cérebro após a morte, e “Space Force” (Netflix), escrita em conjunto com Steve Carell, sobre a colonização espacial.

Se a primeira decepciona por não conseguir ser engraçada e oferece personagens entediantes que suprimem o potencial das gags visuais, a segunda é um erro completo, que passa da concepção ao uso inadequado de princípios básicos da comédia.

A ideia advém de uma promessa de campanha de Donald Trump, que repetia reiteradas vezes que ia colocar bandeiras americanas por todo o Espaço e “dominar” os locais antes dos chineses. Em “Space Force”, o conceito absurdo é reduzido ao slogan “boots on the moon” (botas no espaço), mas a crítica satírica permanece tão superficial que mal se faz presente. Assim, ao contrário da excelente “Veep” (HBO), que soube catapultar os elementos políticos do país em temporadas cínicas e afiadas, a nova série de Daniels e Carell perde o seu tempo com plots insignificantes que se resolvem em trinta minutos de tela e demonstram uma total miopia acerca do seu próprio potencial.

Entre suspeitas de espionagem de um soldado por ele ser russo a investidas bélicas chinesas no espaço e um episódio inteiro gasto tentando ensinar um chimpanzé a consertar a antena de uma nave, as ideias soam velhas, gastas. Não há nada de novo ou sinceramente cativante e nem mesmo a presença simpática de Tawny Newsome consegue se sobressair à escassez de carisma ao redor.

O ponto mais problemático, no entanto, é a alarmante falta de controle sobre as piadas, que são excessivamente explicadas e repetidas, destruindo qualquer possibilidade de risada. As investidas cômicas visuais, por sua vez, resumem-se aos três segundos de admiração pelo absurdo, seguidas de um profundo desapontamento por não serem mais bem exploradas.

Este sentimento é reforçado pelo design extravagante da série, que sugere um investimento altíssimo por parte da Netflix: existe uma variedade considerável de cenários (todos grandes e magníficos), uma porção de extras e efeitos especiais. Tais recursos, que poderiam ser investidos na renovação de séries menores, mas adoradas como “One Day at a Time” (que acabou sendo salva por uma emissora canadense) foi parar nas mãos de pessoas com ideias grandiosas que, infelizmente, tiveram dificuldade em executá-las. Não há o que salvar em “Space Force”.

Ficha Técnica

Ano: 2020 – em andamento

Número de Episódios: 10

Nacionalidade: EUA

Gênero: comédia

Criadores: Greg Daniels e Steve Carell

Elenco: Steve Carell, John Malkovich, Tawny Newsome, Lisa Kudrow, Diana Silvers

Avaliação do Filme

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