Por Luciana Ramos

 

Diante do ambicioso plano de cobrir sessenta e cinco anos de poder da monarca mais longeva da história, Peter Morgan decidiu setorizar seus momentos mais marcantes em décadas – assim, teoricamente, cada temporada de “The Crown” cobriria dez anos da vida de Elizabeth II, começando a partir do falecimento do seu pai, fato que a propalaria ao trono da Inglaterra.

Sendo assim, a fim de conceder um ar mais realista ao tratamento dos personagens, ao invés de submeter os atores a maquiagens pesadíssimas e efeitos especiais inseridos em pós-produção, o showrunner anunciou que todo o elenco seria renovado a cada dois anos, marcando um período distinto da vida da família real britânica.  

A transição entre a segunda e terceira temporada da série da Netflix, no entanto, ainda que realize esta repaginação, não salta tanto no tempo quanto havia prometido, mas marca uma transição significativa na posição de cada personagem: a Rainha (Olivia Colman) se torna o símbolo máximo do Establishment, comandando com mão firme sua família; já o Príncipe Philip (Tobias Menzies) encontra-se depressivo, em plena crise de meia-idade; a Princesa Margaret (Helena Bonham Carter), que ensaiou um final feliz ao casar-se com Anthony Armstrong-Jones (Ben Daniels), não está satisfeita, sentimento que compartilha o Príncipe Charles (Josh O’Connor), que sofre por ter que esconder sua personalidade na figura da Coroa.

Se no passado a série devotou-se a analisar a construção da imagem desta Instituição, voltando-se aos dramas existenciais da Rainha para dimensionar o fardo que é ostentar tal poder – sofrimento extensivo a todos em volta, que têm suas expressões individuais tolhidas na busca da perfeição simbólica – agora, na meia-idade, Elizabeth aparece resignada e, como diz em um momento-chave, chega a encarar a missão como “uma benção”. Diante da frivolidade das suas obrigações, figuras como seu marido e irmã não compactuam desta percepção, o que desloca a narrativa da série a favor deles.

O roteiro, porém, retém-se a destilar pequenos ensaios de infelicidade, sem conseguir aprofundar-se nos temas que se propõe. Assim, episódios como “Poeira Lunar” parecem absolutamente descartáveis enquanto outros, como “Margaretologia”, provocam frustração por não terem sido mais dilatados, dissolvidos ao longo dos dez novos episódios.

De fato, as histórias arquitetam-se como pequenas peças, centrando-se em um (ou no máximo dois) personagens por vez, mesmo que os cinquenta minutos não sejam suficientes para contextualização e subsequente esgotamento dos seus dilemas. Eventos essenciais da recente monarquia, como o romance de Charles e Camilla Shand (Emerald Fennel) – dada as claras implicações futuras na imagem da instituição – são contados superficialmente, sem conceder real profundidade à figura dela ou ao “imbróglio”, como é descrita a confusão romântica a quatro, envolvendo Charles, a Princesa Anne (Erin Doherty), Camilla e Andrew Parker-Bowles (Andrew Buchan).

Outros episódios, a exemplo do primeiro, “Olding”, não são tão relevantes quanto aparentam à primeira vista. Muito pior é o caso de “Aberfan”, esta sim uma história poderosa que tem seu impacto dirimido pela falta de concisão do roteiro. Não obstante, há a nefasta superficialidade com que a crise social e econômica marcada pela greve dos mineiros é tratada ao longo dos dez episódios: relegando-se aos sintomas e efeitos, e não à causa, esquiva-se também do real delineamento da ameaça ao modelo político inglês.

Todos estes exemplos de má estruturação decorrem da óbvia subjetividade do olhar de Peter Morgan – algo natural a qualquer artista, mas que neste caso acaba prejudicando a qualidade do retrato ficcional. Claramente pró Monarquia, o showrunner foge de questões espinhosas ou relega a responsabilidade dos maus atos da Coroa nas mãos de players secundários, como o Lorde Mountbatten (Charles Dance) e a Rainha-Mãe (Marion Bailey), esquivando a sua protagonista de assumir um papel notoriamente conhecido na realidade, o de defensora-mor do Establishment.

A suavização de alguns embates, sendo o mais claro o com Charles, não favorece “The Crown”.  Ainda assim, a série consegue, em alguns episódios, reafirmar a sua relevância, atestando a capacidade de realizar um acurado estudo de personalidade e seus entrelaces com o panorama social e histórico do Reino Unido. É o caso de “Bubbikins”, o já citado “Imbroglio” e “Dangling Man”, que promove uma poderosa análise do destino de Charles a partir da iminente morte do Duque de Windsor (Jason Watkins).

 Os eventos finais, pontuados pelo Jubileu de Prata (1977) abrem espaço para mais um período espinhoso da família real, que começa com a esperança da renovação da imagem com o casamento dos filhos da Rainha, em especial a inserção de Diana no vocabulário popular, e culmina em uma série de crises pessoais que se transformam em uma ameaça à legitimidade do modelo monárquico. A quarta temporada promete, mas a sua qualidade descenderá integralmente da disposição de Peter Morgan em abrir mão das preferências pessoais a fim de se propor a compor um panorama mais complexo e rico da família real britânica.

Ficha Técnica

Ano: (2016 – em andamento)

Número de Episódios: 10 (por temporada)

Nacionalidade: Reino Unido, EUA

Gênero: drama

Criador: Peter Morgan

Elenco: Olivia Colman, Tobias Menzies, Helena Bonham Carter, Ben Daniels, Josh O’Connor, Erin Doherty, Emerald Fennel

Trailer:

Avaliação do Filme

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