Por Luciana Ramos

 

Boas são as obras que conseguem condensar seus temas em uma sequência ou imagem, criando um simbolismo que ganha força conforme o plot avança. É o caso da bela cena de abertura de “The Plot Against America”. Nela, meninos se posicionam em um círculo dividido com nomes de países e, ao apontarem o dedo e “declararem guerra” a um deles, iniciam sua versão de pega-pega.

Mais do que um modo criativo de jogar ou um reflexo histórico (visto que a história se passa entre os anos 1940 e 1942), a passagem antecede a separação – tanto física quanto ideológica – que esta versão da sociedade americana passará na minissérie baseada no livro homônimo de Phillip Roth. Ao imaginar a adesão dos Estados Unidos às ideias nefastas do nazismo no seu romance, o autor explorou as inúmeras fracções sociais, políticas e até mesmo familiares decorrentes da penetração de um discurso de ódio nas entranhas do país.

Na sua versão dos acontecimentos, Charles Lindbergh (Ben Cole), uma figura real que ganhou a fama por ser o primeiro piloto a cruzar sozinho o Oceano Atlântico, candidata-se e ganha a presidência, derrotando Franklin D. Roosevelt. O discurso da dita celebridade da época, proferido em jornais e programas de rádio, clamava pela isenção dos EUA na Segunda Guerra Mundial – fazendo-o com base em argumentos nacionalistas e que minimizavam Hitler e suas ameaças, um campo bastante escorregadio.

É este o ponto de partida para a análise de Roth sobre o funcionamento do fascismo, suas características, nuances e, essencialmente, sua capacidade de devastar uma comunidade. O episódio inicial da série da HBO, adaptada por David Simon (“The Wire”, “The Deuce”) e Ed Burns, explora as divergências de interpretação diante deste tipo de fala que flerta com ideias sombrias, como o genocídio do povo judeu, sem nunca afirmar veementemente uma posição.

As insinuações contidas no nacionalismo do slogan “America First” (realmente utilizado na época e reciclado na campanha eleitoral de Donald Trump) e na definição de “um só povo” ou no desmerecimento da luta para salvar as minorias perseguidas do extermínio por “não ser nosso problema” são mais do que suficientes para alertar os judeus americanos e pessoas de outras raças que sofrem preconceitos, como os negros, sobre os perigos iminentes, mas não para os demais, cegos pelo deslumbramento da figura “heroica” que as profere, reduzindo o discurso à pregação demagoga de paz.

Assim, os incomodados com a política social de Roosevelt, os opositores ao confronto, os ignorantes e os simpatizantes das ideias nazistas superam os demais em votos e, na série, Lindbergh (que nunca, na verdade, concorreu ao cargo) ganha a cadeira da presidência. Neste sentido, um dos aspectos mais interessantes para sua alçada ao poder é o uso da influência de Lionel Bengelsdorf (John Turturro), um fantoche muito bem colocado na linha de frente da campanha sob o argumento que isto comprovaria que o presidente não era antissemita. Seu papel, embora ridículo, é aceito com entusiasmo, já que o rabino contenta-se com o ganho de benefícios pessoais e escolhe ativamente olhar para o outro lado quando o mal se aproxima – inclusive por achar que ele, devido a sua “influência” com a primeira-dama, estaria isento de qualquer violência, seja ela física ou moral.

Em outra esfera encontra-se o vendedor de seguros Herman Levin (Morgan Spector), que não mede o tom inflamatório na condenação do discurso nazista de Lindbergh e, por isso, vai paulatinamente perdendo espaço social, sendo enquadrado e reduzido, forçado a “baixar a bola” para que possa sobreviver no seu país. Esta insistência em continuar em solo americano é vista com desprezo pela sua mulher Bess (Zoe Kazan), que parece mais astuta na captação das simbologias de cada decisão governamental.

Ela vê com extrema desconfiança, por exemplo, o envio do filho mais velho Sandy (Caleb Malis) a um acampamento de verão no meio-oeste (tradicionalmente racista) com não-judeus, um programa que detém clara semelhança com a chamada “juventude hitlerista”. Este é o mote da sua briga com a irmã Evelyn (Winona Ryder), coordenadora destes esforços e mais preocupada com sua ascensão social – inclusive ao desejado papel de esposa do rabino Bengelsdorf – do que com a adoção radical do sobrinho (que desconhece o contexto social em profundidade) ao regime “lindberghiano”, inclusive servindo como recrutador de outros jovens.

O mesmo alerta acende em Bess quando várias famílias judias são transferidas para cidades pequenas e cercadas por supremacistas brancos mas, enquanto ela prefere partir para viver no Canadá por ser democrático e mais tolerante, visando primeiramente a segurança dos filhos, o seu marido crê que qualquer sacrifício imposto deve ser perdurado em nome da luta pela democracia. No entanto, sua visão de resistência se dá apenas no campo na vocalização das insatisfações, algo repelido pelo seu sobrinho Alvin (Anthony Boyle), que acredita somente que ações combativas concretas podem expurgar a sombra do nazismo.

Como se vê, Simon e Burns trabalham o tema de maneira complexa, pautando-se em diversos pontos de vistas conflitantes para fazê-lo; cada um deles contribui para um aprofundamento na complexidade da questão. Da mesma forma, a evolução das políticas nazistas é paulatina e ascendente, levando a uma maior incorporação de suas ideias pela parte dominante da sociedade e consequente sufocamento das minorias dissonantes.

Obviamente, chega-se a um ponto em que os discursos se transmutam em ações e rompantes de violência tornam-se comuns e endossados pelo governo – sempre de maneira escorregadia. Esta ascensão de tensões é muito bem marcada pela fotografia: a iluminação respeita as fontes de luz já presentes nos ambientes, como janelas e luminárias, e usa-as para compor espaços que, embora bem iluminados, são permeados por pontos de sombras. Conforme a situação do país torna-se mais preocupante, tais pontos vão se esvaindo, tornando as imagens mais escuras, em tom sépia. A luz, no entanto, mesmo que em pequenas frestas, persiste em entrar na casa da família Levin, apontando para a esperança de dias melhores.

Esta ideia de futuro mais compreensivo e brilhante, no entanto, é trabalhada pelos showrunners com uma dose de cinismo, já que eles consideram nesta equação as esferas de poder, seus interesses e corrupções, mas a mensagem prevalecente é a de resistência. Como Bess diz ao seu marido em um momento: “querendo ou não, Lindbergh nos ensinou o que é ser judeu”.

Ficha Técnica

Ano: 2020

Número de Episódios: 06

Nacionalidade: EUA

Gênero: drama

Criadores: David Simon e Ed Burns

Elenco: Winona Ryder, Anthony Boyle, Zoe Kazan, Morgan Spector, Azhy Robertson, Caleb Malis, John Turturro, Ben Cole

Avaliação do Filme

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