Por Luciana Ramos

A notícia de que a atriz Allison Mack (mais conhecida no Brasil por seu papel em “Smallville”) havia sido presa por sua contribuição em recrutamento e controle de mulheres em uma seita sexual parecia, à primeira vista, produto de uma teoria de conspiração. Como seria possível que um culto com inúmeros membros e ramificações em diferentes países atuasse há tanto tempo? Como seria explicável a participação de filhos de políticos, membros da comunidade cinematográfica e herdeiros bilionários?

A enxurrada de artigos jornalísticos subsequentes preencheria as lacunas para compreensão da estrutura e dos crimes cometidos pelo NXIVM, organização comandada por Keith Raniere. Uma dúvida latente, no entanto, persistiria na cabeça de muitos: como pessoas lúcidas, capazes e talentosas puderam adentrar em tal esquema? É exatamente este o componente principal da nova série da HBO.

Para tanto, antes de mergulhar nas ilegalidades, nos padrões de controle, punição e submissão e, especialmente, no voto de devoção sexual a um líder que marcava a vagina das suas “escravas” (como eram mesmo chamadas) com suas iniciais, “The Vow” foca os primeiros episódios nos relatos de três dos seus mais fundamentais personagens, Bonnie Piesse, Mark Vicente e Sarah Edmolson.

Eles ajudam a explicar os pormenores e, assim, a compor um escopo amplo do caráter apelativo da organização. O chamado ESP (Executive Sucess Program), porta de entrada para o NXIVM, era um programa que se propunha a superar as necessidades racionais/financeiras dos participantes ao propor uma investigação a fundo das suas psiques. Isto levaria a quebra de “padrões limitantes” e, assim, decorreria em suas evoluções pessoais.

Deste modo, segundo promessas do líder com cara de Jesus, as ações de cada um provocariam um efeito dominó na sociedade e, assim, mudariam o mundo. O tom excessivamente otimista era contraposto ao claro interesse de Raniere em pessoas bonitas, ricas, talentosas ou com algum tipo de propulsão na mídia para elencar seu grupo de devotos. Por baixo da carcaça de elevação espiritual e alegria disseminada em forma de uma “comunidade” em Albany, NY, havia táticas de punição, controle (inclusive de comida), privação de sono e manipulações.

Aos poucos, cada integrante ia se convertendo ao culto, adequando-se às regras, deixando de contestar a autoridade e alegrando-se em galgar mais uma posição na hierarquia da organização – devidamente marcada por faixas coloridas.

As inúmeras contestações de Bonnie, no entanto, levaram-na a abandonar o NXIVM, sendo seguida por seu marido, Mark, que ocupava um cargo alto no seu conselho diretor. Farejando comportamentos duvidosos (principalmente de Allison Mack), o casal buscou informações sobre os inúmeros grupos de trabalhos e suas condutas… e chegaram ao DOS, desconhecido para ambos e muitos outros membros da organização. Tratava-se de um subgrupo composto por mulheres subservientes que eram marcadas e colocadas à mercê de seus “mestres”, sendo o supremo-líder o próprio Keith, com quem era esperado que elas fizessem sexo.

O caráter criminal da descoberta, mais tarde cunhada de tráfico sexual pela adição de ingredientes nojentos do seu modus operandi, levaram o casal, Sarah (que abandonou a seita logo após ser marcada sem consentimento) e seu marido Nippy a entrarem em contato com outros desertores. Como reforço, procuraram a ajuda de Catherine Oxenberg, famosa nos Estados Unidos tanto por ser atriz quanto por ser da realeza britânica e cuja filha India participava da seita. Juntos, eles destrincharam as inúmeras táticas de coerção e intimidação (algumas jurídicas, outras ilegais) dentro e fora do culto.

Com os personagens, suas visões e interesses definidos, “The Vow” acompanha a luta deles para abertura de um processo criminal e, ao mesmo tempo, investiga as conflitantes relações de cada um com o culto – da mensagem proferida à praticada, da enorme culpa à busca por reparação. Notam-se nos depoimentos emocionados as profundas rachaduras nas suas identidades (alguns dedicaram décadas à organização), no modo como se posicionam no mundo e compreendem, aos poucos, o quanto tiveram pensamentos e linguagens moldados por Raniere.

Tão vaidoso quanto esperado, este apresenta-se como “o maior QI do mundo” (240 pontos) e, portanto, alguém com a chave de compreensão para todas as questões humanas, capaz de profundas transformações a nível global caso as pessoas apenas seguissem seus comandos. A seu dispor estava Nancy Salzman, uma terapeuta especializada em testes cognitivos que usou seus estudos para aplicação experimentos usados para submissão dos membros.

Conforme a excelente série mostra de forma contundente, o processo de fragmentação e moldagem da identidade era gradual e acumulativo; por vezes durava anos até que o membro em questão deixasse o desagradável hábito de questionar seu líder. Neste momento, abriam-se portas para outros subgrupos mais radicalizados em um processo de escalada da devoção até o DOS.

“The Vow” desfruta de um abundante conteúdo em áudio e vídeo para delinear o NXIVM, traçar seu funcionamento, o impacto nas vidas das pessoas destruídas pelo culto e seus questionamentos existenciais subsequentes. É doloroso assistir alguns relatos, pois eles desmontam o tipo de narrativa comum à este tipo de produção: ao invés de investir no modelo satisfatório “isso jamais aconteceria comigo”, a série demonstra que todo ser humano possui fragilidades e basta instiga-las no momento e de maneira oportuna para leva-los à suspensão de descrença, gatilho inicial do processo de cega devoção.

Esmiuçando os dramas pessoais dos seus objetos de pesquisa para então embarcar no detalhamento jurídico do culto, a série dirigida por Jehane Noujaim e Karim Amer ainda abre boas janelas de abordagem para a segunda temporada – especialmente porque o processo jurídico ainda está em curso nos Estados Unidos.

Ficha Técnica

Ano: 2020 – em andamento

Episódios: 9

Gênero: documentário

Direção: Jehane Noujaim, Karim Amer

Avaliação do Filme

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