Por Luciana Ramos

 

Uma espécie de “kabuki tropical”. Assim Armond (Murray Bartlett) define o trabalho dos funcionários do chique resort White Lotus à Lani (Jolene Purdy). Na sua visão de gerente, cada hóspede deve ser tratado como a pessoa mais especial do estabelecimento – vide o padrão de luxo oferecido – e neste jogo de bajulação não há espaço para o staff aflorar sentimentos; mascarados com sorrisos, põem-se à disposição. Porém, quando a jovem entra em trabalho de parto e revela precisar ter mentido para garantir algum sustento ao seu bebê, o jogo de ilusão montado pela nova série da HBO despedaça-se rapidamente, pondo em curso um efeito dominó que culminará em um assassinato.

Ao contrário do esperado, a produção não se atém ao modelo whodunnit, que estimula o espectador a brincar de detetive. Muito pelo contrário: episódio após episódio, suas intenções são frustradas e o olhar é redirecionado para os relacionamentos entre hóspedes e funcionários do hotel, revelando os conflitos entre eles.

De um lado, explora-se o privilégio branco de forma avassaladora. A miopia de alguns personagens em entenderem suas posições de poder é destilada através de comentários preconceituosos (como a reflexão de Nicole sobre como combater o assédio sexual é difícil para os homens) ou de posse, caso de Tanya McQuoid (Jennifer Coolidge), que trata a gerente do SPA Belinda (Natasha Rothwell) como se fosse sua. Do outro, há o ódio e cansaço daqueles que trabalham para servir e mal conseguem se conter suas frustrações.

Esse duelo sutil, mas potencialmente beligerante torna-se o centro da discussão proposta pelo criador Mike White, que usa os arquétipos do menino rico Shane (Jake Lacy) e do gerente-de-saco-cheio Armond (Murray Bartlett) como os peões principais do seu jogo mental. O primeiro, em sua lua de mel, recusa-se a aceitar um erro do gerente e não descansa até conseguir garantir o maior apartamento do hotel, símbolo de uma visão de mundo autocêntrica e pautada na disputa pelo topo da cadeia. Isso inclui a relação que mantém com a esposa, Rachel (Alexandra Daddario), forçada a aguentar seus “pitis” no que deveria ser uma viagem romântica e, como se não bastasse, com seu valor constantemente diminuído aos atributos físicos.

Armond, por sua vez, mostra-se mesquinho e disposto a pequenas vinganças, ignorando o fato de que está em clara desvantagem. Possui forte inclinação para os excessos e, conforme perde as esperanças, também se desfaz dos freios comportamentais, sendo sugado cada vez mais ao fundo do poço. As microagressões transpõem os limites das classes e se instalam nos seios familiares dos visitantes, podendo ser observadas nos comentários pouco decorosos que Kitty (Molly Shannon) faz à sua nora, Rachel, ou, mais especificamente, nas interações da família Mossbacher.

Mark (Steve Zahn), um patriarca fraco e com “rosto bonzinho”, tem sua ideia de masculinidade alpha desafiada em dois consecutivos episódios que o levam a se desfazer de qualquer filtro social, revelando sua faceta mais podre com comentários homofóbicos e misóginos direcionados ao jovem Quinn (Fred Hechinger). Já Nicole (Connie Britton), sua esposa, é incapaz de prestar real atenção aos filhos – visto que está sempre ocupada com o trabalho – e oscila entre divagações fúteis de práticas de bem-estar que não se refletem na sua personalidade ou, muito pior, na extrapolação de pensamentos deturpados do mundo.

Estes são condenados com sarcasmo por Olivia (Sydney Sweeney), filha adolescente, que se diz consciente e combativa, mas trata os demais com desprezo e transita pelos corredores do hotel com ar de superioridade, como se todos os espaços a pertencessem por direito. Não obstante, revela-se fútil o suficiente para fingir ler livros de autores renomados, mas culpada o bastante para usar a “amiga” Paula (Brittany O’Grady) como objeto de compensação. Esta possui um filtro mais apurado dos comportamentos alheios e sua raiva cresce conforme aprende mais sobre o que foi preciso demolir para conceder espaço à sofisticação do hotel. Suas ações, no entanto, são tão inconsequentes quanto as demais, revelando também a sua miopia em relação ao funcionamento do mundo.

Completa a lista de hóspedes Tanya, que viaja ao local com o intuito de se desfazer das cinzas da mãe. Completamente disfuncional e carente, apega-se à Belinda após esta se propor a ouvi-la, mas não inocentemente começa a encantar a funcionária do SPA com promessas de um negócio autônomo, demonstrando saber usar a vulnerabilidade financeira desta como moeda.

Ao longo dos seis episódios da primeira temporada, exploram-se as falhas de caráter e deturpações de cada um dos personagens (de ambos os lados), criando um intricado estudo psicológico das suas ações e reações. “The White Lotus” investe em diálogos afiados e uma dose de loucura para expor o que há de verdadeiro por baixo de cada máscara. Vai além e, através da abertura e excelente trilha sonora, reforça o componente animalesco presente em todos eles. Transforma, assim, as dinâmicas sociais em um jogo de presas e predadores onde o dinheiro fala mais alto.

Ao contrário do que se possa imaginar, a série trata as questões com sagacidade e leveza, oferecendo diversos momentos hilários que abrem portas para a assimilação da crítica em curso. Esta é coroada ao final, quando, enfim, o prometido assassinato é revelado. Seu caráter fútil, aliado a um desenrolar simples, serve como um anticlímax que, pela sua não-potência, reforça os temas propostos ao longo dos episódios.

Para a premissa funcionar, era essencial um elenco de peso, que soubesse trabalhar as nuances com inteligência e humor. Felizmente, os atores foram perfeitamente escalados para seus papéis e certamente são parte fundamental do seu sucesso desta que já é a produção mais assistida no streaming HBO MAX desde o seu lançamento. Destacam-se Jake Lacy e Murray Bartlett pela sutileza com que conseguem inserir um pouco de raiva em cada conversa (dita) amistosa, e Jennifer Coolidge, pela credibilidade que imprime a uma personagem completamente fora da realidade.

“The White Lotus” é um prato cheio para quem deseja entretenimento de qualidade. Abordando diversos temas paulatinamente, costura sarcasmo e uma boa dose de impropérios para apresentar uma trama que explora a bolha de privilegiados e aqueles capazes de furarem suas ilusões.

Ficha Técnica

Ano: 2021

Número de Episódios: 06

Nacionalidade: EUA

Gênero: comédia, drama

Criador: Mike White

Elenco: Murray Bartlett, Jake Lacy, Jennifer Coolidge, Britanny O’Grady, Sydney Sweeney, Alexandra Daddario, Steve Zahn, Natasha Rothwell, Fred Hechinger

Avaliação do Filme

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