Por Luciana Ramos

*Essa crítica contém spoilers de “WandaVision*

Diante de uma plateia, Wanda (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) tentam apresentar um truque de mágica comum na tentativa de mostrarem o quanto são normais e, assim, adequarem-se à pacata vizinhança de Westview. O problema é que, naquele momento, Visão parece confuso, perdido, agindo como se estivesse bêbado pois o chiclete que cordialmente engoliu está parando suas funções. Eis que, a contragosto de Wanda, ele se refere aos demais: “Nós vamos manipulá-los e vocês acreditarão, pois humanos são facilmente enganados”.

A piada dirigida à plateia pode também ser interpretada como um aviso ao espectador já que, ao longo de nove episódios de “WandaVision”, este é convidado a mergulhar na história da televisão americana e acompanhar a interação dos dois super-heróis em um cenário pacato, tentando lidar com situações cômicas que interferem na perfeição que é a rotina do casal…ou ao menos, essa é a premissa da sitcom.

Os primeiros episódios, referentes aos anos 50 e 60 são verdadeiros deleites e consolidam a ideia de perfeição romântica do subúrbio, mas pequenos objetos (como um helicóptero vermelho em um mar P&B, pequeno aceno à “A Vida em Preto e Branco”) inserem rupturas no cotidiano idealizado, levando pessoas dentro e fora da sitcom a questionarem a realidade descrita. Não demora muito para entendermos que o universo apresentado é uma criação de Wanda que, involuntariamente, transpôs seus produtos de conforto, as sitcoms, para o campo da realidade, transformando uma cidadezinha inteira no caminho e, portanto, obrigando seus moradores a interpretarem papéis definidos a partir de um fortíssimo controle mental.

Para que tanto seu plano como a premissa de toda a minissérie da Marvel funcionem, é extremamente necessária a suspenção de descrença – dentro dos limites de Westview, a não contestação, a harmonia da cidade; fora, a aposta na qualidade do material apresentado. Por isso, qualquer pequena ruptura ou digressão do “roteiro” de sua sitcom é repelido por Wanda, que edita e rebobina até reencontrar a encenada perfeição. Porém, ela não contava que estas seriam tão frequentes (mostrando que a protagonista age repetidamente por impulsos egoístas, sem espaço para reflexão de como suas ações atingem outros) e muito menos que seriam comandadas por Visão, que suspeita sobre a essência da sua vida.

É exatamente o seu questionamento que abre um campo irreversível de rupturas, com personagens interrompendo a fantasia para pedirem indicações de atuação, por exemplo. Configura-se, a partir deste ponto um movimento interessante de ação e reação: a cada interferência, Wanda reforça e expande os limites da fantasia, mas a realidade sempre dá um jeito de se impor.

Cabe dizer que o adorável mundo da sitcom em constante transformação não passa de uma resposta dela ao luto após a morte de Visão durante os eventos desencadeados por Thanos. Ao ter a chance de um enterro negada, um importante ritual de aceitação da morte, e ver o amor da sua vida sendo tratado pelo dirigente da E.S.P.A.D.A., Tyler Hayward (Josh Stamberg), como uma arma, ela foge para o lugar onde deveriam construir uma vida juntos e, a partir da dilacerante dor, forja uma realidade onde isso é possível da maneira mais bela, simples, harmônica.

A potente representação da busca pelo conforto mental como válvula de escape é reforçada pela escolha do showrunner Jac Schaeffer em abordar a história da televisão americana, inserindo um caráter metalinguístico que torna sua narrativa muito mais complexa, simbolicamente embasada e diferente dos demais produtos da Marvel. São inúmeras as referências apresentadas ao longo dos episódios – de “The Dick Van Dyke Show” à “Feiticeira” e “All in the Family” – em uma amálgama deliciosa de entretenimento que atua em diferentes camadas interpretativas, agradando aos conhecedores da história dos seriados aos fãs das narrativas convencionais de super-heróis.

“WandaVision” não se confina aos limites do show familiar, pois aposta no combate entre o mundo criado por Maximoff com o exterior, onde uma QG da E.S.P.A.D.A. foi criada para conter a situação. Aposta-se, para isso, no retorno de personagens queridos com pouca participação em obras anteriores, como Jimmy Woo (Randall Park) e Darcy Lewis (Kat Dennings), além do mergulho na psique e no potencial de Monica Rambeau (Teyonah Parris) como um importante personagem das próximas fases da MCU abrindo, inclusive, uma interligação direta entre sua personagem e o universo de “Capitã Marvel 2”. Os três servem de guias para o entendimento narrativo, explicando os pormenores do funcionamento da realidade forjada de maneira didática e repetida, comum à Marvel, para não alienar os espectadores mais distraídos.

No centro, estão os talentos de Paul Bettany e Elizabeth Olsen, que simplesmente arrasam nos seus papéis. “WandaVision” os exige muito mais do que as produções anteriores da Marvel, e ambos demonstram imensa técnica ao balancearem o material cômico com as entonações dramáticas muitas vezes apenas apontadas nas cenas. Elizabeth, em especial, está simplesmente maravilhosa como Wanda, pois a embebe de um carisma que leva o espectador a compreender seus erros e, acima de tudo, a torcer por ela. Ademais, consegue mesclar diversos estilos de atuação (gags visuais, caretas exageradas ou sofrimento comedido) e os trabalha com sutileza no decorrer dos episódios sem nunca parecer forçada.

O mesmo pode-se dizer da brilhante Kathryn Hahn, que “rouba a cena” toda vez que aparece como Agnes, a vizinha enxerida, reforçando no papel a versatilidade que a levou a uma carreira prolífica – embora em papéis geralmente pequenos.

Outro aspecto bem interessante da produção é a construção estética dos “dois mundos”. O universo externo (que representa a realidade) é frio, sombrio, chuvoso. São trabalhados tons acinzentados, azuis e pretos em uma sufocante ausência de cores (e, metaforicamente, de esperança para a protagonista) que é gradualmente quebrada conforme os campos ilusório e real tornam-se mais fundidos.

O seriado, portanto, é o seu extremo oposto. Os dois primeiros episódios são filmados em preto e branco, mas sem muitos contrastes, equilibrados em uma clara gradação de cinzas que reflete a comicidade harmônica das situações. A proporção de tela, por sua vez, respeita a veracidade histórica, optando pelo enquadramento típico de TVs antigas, quadradas (4:3). No terceiro, passado nos anos 70, as paredes ganham cores subitamente em uma belíssima sequência e a tela se expande um pouco, ao passo que a sitcom sai da mise-en-scène de teatro filmado para arriscar alguns movimentos de câmera – ainda muito tímidos, assim como a pouca saturação dos tons e a imagem chapada, sem profundidade – um engatinhar no processo evolutivo da TV.

Conforme as décadas mudam em ritmo acelerado, as câmeras ganham dinamismo, as cores ficam mais carregadas, os campos visuais são mais bem explorados e, não menos importante, a narrativa ganha mais cortes, investindo em planos e contra planos para mostrar os dois lados da conversa ao invés de um enquadramento estático lateral – movimento que galga a passos largos até a quebra da quarta parede (homenagem à “Malcolm in the Middle”) e o estilo mockumentary (“Modern Family” e “The Office”).

O rigor estético apresentado pelo diretor Matt Shakman na construção imagética dos episódios é, sim, uma forma de homenagem ao processo de construção da TV americana, mas também atua como um fator de dinamismo para a produção: as nuances oferecem frescor à minissérie e as pequenas transições – entre sitcom e QG ou entre décadas – são pontuadas pela expansão ou contração do aspecto de tela (aspect ratio), detalhe brilhante de um trabalho técnico impecável que se estende ao vestuário, direção de arte e efeitos especiais.

A inserção destes em um ambiente tão retrô, por sinal, configura uma ótima quebra de expectativa, um quê de estranheza que torna “Wandavision” muito mais charmosa. Sobre este ponto, é válido detalhar sobre o sétimo episódio, onde uma Wanda em crise parece ter perdido o controle sobre seu próprio universo, que insiste em saltar temporalmente e desafiar seu entendimento. A instabilidade dos cenários não reflete somente o seu emocional, mas o propósito da sua fantasia: uma vez que Visão a confronta e decide desafiá-la, não há sentido em manter a fachada ilusória de Westview, construída para que eles pudessem ter a chance de uma vida a dois sem desafios, absolutamente harmônica (e, portanto, impossível). O que ela não entende é que ele se tornou uma criatura com autonomia o suficiente para compreender e questionar além dos seus comandos mentais, tal como a protagonista do ótimo filme “Ruby Sparks”, que se descola do criador para clamar sua independência.

A investigação dele sobre os fatos furam a bolha de felicidade até um ponto irreversível, culminando final espetaculoso digno das produções da Marvel e bem menos inspirado do que os episódios anteriores. Apelando para diferentes linhas de confrontos, uso de superpoderes e conclusões rápidas – algumas não bem solucionadas, dando espaço para o desenrolar nos próximos filmes e séries – Schaeffer e Shakman amarram rapidamente as pontas soltas para conseguirem, em menos de uma hora de projeção, conceder espaço à Wanda para ter o encerramento que tanto precisou e lhe foi negado.

O adeus, embora triste, é necessário para superação do luto e coroa o único final possível para a minissérie: afinal, como ela nos mostra, não há escapismo que dure para sempre. Porém, sempre há espaço em cenas pós-créditos para atiçar o público com possíveis desenvolvimentos futuros.

Ficha Técnica

Ano: 2021

Número de Episódios: 09

Nacionalidade: EUA

Gênero: Ação, Comédia, Drama

Criador: Jac Schaeffer

Elenco: Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Kat Dennings, Randall Park, Teyonah Parris, Kathryn Hahn, Josh Stamberg

Avaliação do Filme

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